Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

OS 250 ANOS DA PASSAGEM DE OEIRAS A CONCELHO

 

DA MEMÓRIA … JOSÉ LANÇA-COELHO
 
DEFENSORES E ATACANTES DO MARQUÊS DE POMBAL (II)
 
 
 
            O mito pombalino tem como subsidiário o mito negativo do complot jesuítico, sendo uma das obras mais lidas nas lojas maçónicas, como a Bíblia do antijesuitismo, a Dedução Cronológica e Analítica escrita sob a supervisão de Pombal, editada em 1767/8.
            Relativamente à problemática da iniciação de Pombal na Maçonaria, ainda hoje se desconhece tal facto, embora os historiadores se dividam nas suas opiniões. Por exemplo, enquanto Silva Dias e Ferrer Benimeli argumentam que não existem provas documentais que liguem o Marquês àquela instituição, por outro lado, Oliveira Marques e Alves Dias valorizam certos registos documentais que dão como certa a iniciação de Sebastião José numa loja maçónica de Londres.
            Por seu turno, os historiadores jesuítas denunciam a legitimação maçónica de Pombal, tentando tirar credibilidade à teoria da conspiração que estará na base da expulsão da Companhia de Loyola, como sendo uma mentira preparada no interior das lojas maçónicas.
            Vejamos agora a obra de um dos muitos acérrimos defensores do Marquês de Pombal, o mação e professor de Direito da Universidade de Coimbra, Emídio Garcia (1838-1904). O seu livro, intitulado O Marquês de Pombal. Lance d’olhos sobre a sua ciência, politica e administração; ideias liberais que o dominavam, Plano e primeiras tentativas democráticas (1869), surge na sequência de, por um lado, novas campanhas anticlericais e, por outro, após a publicação da Encíclica Quanta Cura (1864) e do seu celebérrimo anexo Syllabus Errorum do Papa Pio IX, onde os representantes máximos da igreja Católica preconizavam o afastamento do mundo moderno e dos seus valores.
            Na obra de Emídio Garcia, o Marquês de Pombal é apresentado como o pioneiro das liberdades alcançadas no século XIX pelo movimento liberal. Paradigmático, é o facto do governo ditatorial de Pombal ser reconhecido como um governo democrático ou liberal.
            Como transformador da História, Garcia preconiza duas atitudes, a revolucionária e a reformista, atribuindo a segunda ao Marquês, partindo da premissa que este, interpretando os grandes anseios do povo português, desejava paulatinamente mudar o destino de Portugal. Porém, o que não é sublinhado, são os processos de que Pombal se serve para fazer vingar essa opção ‘reformista’ e que, em ultima instância, seguindo o ‘despotismo esclarecido’, passa pela concentração de todos os poderes na pessoa do Primeiro-ministro, ao lado da estatização de todas as instituições.
            Augusto Comte, melhor dizendo Emídio Garcia, pois esse era o nome do filósofo positivista francês que o catedrático de Direito escolhera como pseudónimo, recorre também a um outro processo, muito seguido pela Ideologia, para endeusar a figura de Sebastião José, e que passa pela comparação com grandes vultos, políticos, filósofos e outros, do Antigo Regime. Como exemplo, atentemos na seguinte passagem do seu livro anteriormente citado, onde em meia dúzia de linhas se compara o conde de Oeiras a quatro grandes vultos do pensamento ocidental: «Como político propôs-se o plano e as medidas de Richelieu, (…) como economista e financeiro esforçou-se por imitar o grande estadista Sully; discípulo de Quesnay, aprendera com ele que é no solo que reside a principal fonte de receita e as matérias primas de toda a produção; como Adam Smith já não ignorava que só o trabalho pode arrancar à natureza os seus produtos(…)». (p. 19)
            Emídio Garcia exalta ainda a reforma pombalina da Universidade portuguesa, que, na sua perspectiva, teria contribuído para fornecer um novo alento às letras, ciências e artes, ao mesmo tempo que, tirou aquela instituição académica de uma decadência que se arrastava há dois séculos. É verdade que o ensino era livresco (sebenteiro), dogmático e anti-experimentalista e quem o dominava era a Companhia de Jesus, daí que, a expulsão dos Jesuítas do país, seja o clímax de um todo, onde se insere também a sujeição da Alta Nobreza, simbolizada no processo dos Távoras.
            Para além de tudo o que até aqui foi dito, devemos também salientar o anacronismo com que a obra de Pombal é analisada, não esquecendo que as teorias de Carvalho e Melo não correspondem às divulgadas pela Maçonaria no século XIX, que, fazendo da expulsão dos Jesuítas uma bandeira, congregava nas suas hostes o positivismo filosófico, o cientificismo versus superstição religiosa, e, o republicanismo, donde se pode concluir que, ao mito de Pombal se opõe o mito Jesuítico.
publicado por cempalavras às 22:02
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