Terça-feira, 16 de Junho de 2009

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DA MEMÓRIA…JOSÉ LANÇA-COELHO
 
COMO CONHECI O MEU AMIGO, E ESCRITOR, MIGUEL REAL
 
            Após o 25 de Abril de 1974, facto histórico que me apanhou no 2º ano da Universidade, houve uma profunda reestruturação do curso de Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa – na minha opinião, a reforma do curso não foi tão profunda quanto devia ser, pois apesar dos saneamentos, houve muitos professores sebenteiros, pró-regime deposto, e reaccionários, que tiveram artes de réptil que, conseguindo ziguezaguear e dando o dito por não afirmado, conseguiram manter a sua “vidinha”, como dizia Alexandre O’Neill (1924-1986).
            A verdade é que o ano lectivo seguinte, 1974/75, começou em Março de 1975, com uma vasta gama de “cadeiras”, que os alunos podiam escolher de acordo com os seus diversos critérios. A minha selecção recaiu em todos os professores que conhecera nos dois anos anteriores e que aliavam a um profundo saber, uma grande humanidade e disponibilidade para com os alunos.
            Entre esses Mestres (designo-os assim, apesar de na altura não haver a figura académica do Mestrado) destacava-se um jesuíta, que fora levado para a Faculdade pela mão do professor e escritor Vitorino Nemésio (1901-1978) e cujo nome é Manuel Antunes (1918-1985). Eu, nascido numa família republicana, democrática, laica e anticlerical, deixara-me fascinar pelo magistério pedagógico-didáctico desta sumidade, - a que nenhum catedrático queria fazer exame para que ele ocupasse semelhante estatuto académico, uma vez que sabia que a sua eloquência e saber eram fora do vulgar -, quando fora meu professor no primeiro ano do curso na “cadeira” de História da Cultura Clássica.
            Por tal motivo, no 3º ano, escolhi um seminário intitulado “Platão” que era dado pelo padre Manuel Antunes. Como se percebe pelo que atrás ficou dito, havia uma mistura de alunos de vários anos, pois estou em crer que não havia na Faculdade um aluno que não apreciasse a eloquência e a humildade deste verdadeiro poço de cultura. Eloquência e humildade, palavras que actualmente nos parecem tão antagónicas nesta crise de valores culturais em que vivemos, mas que só os grandes Homens sabem aliar.
            O seminário era dado numa sala de aula vulgar, teria talvez trinta e tal alunos que assistiam às sábias palavras do Mestre, numa primeira fase, e que, posteriormente, apresentavam trabalhos com toda a liberdade sobre as diferentes e variadíssimas temáticas que o título “Platão” pode encerrar.
            Ainda eu não apresentara o meu trabalho, assistindo já à apresentação de muitas comunicações de vários colegas, quando uma bela tarde, fui surpreendido pela novidade da temática apresentada por um colega que eu sabia ser do curso um ano ou dois atrás do meu. Um rapaz, um pouco mais baixo e mais novo do que eu, de cabelo encaracolado, acho que ainda não usava óculos por essa altura, com um discurso bem estruturado em termos lógicos e sabendo o que queria e o que dizia.
            A novidade era esta: uma análise marxista da problemática da escravatura na Grécia do século IV a.C., e em especial, na sociedade contemporânea de Platão. Devo confessar que tudo aquilo me fascinou por diversos motivos: 1º - porque nunca vira abordada semelhante problemática naqueles termos; 2º - porque nunca tive nenhuma tendência para a economia e por isso mesmo nunca me sentira atraído pela leitura do Capital de Karl Marx (1818-1883) que neste momento histórico português se lia como uma Bíblia; 3º - porque a reacção do Professor, foi da mais pura simpatia, ao mesmo tempo que, mostrava que conhecia a fundo esta obra amaldiçoada pelo salazarismo e pela Igreja Católica.
            O padre Manuel Antunes mostrava a grandiosidade da sua Pedagogia, não só ao corroborar certas ideias defendidas pelo meu colega, como também, ao mostrar que as conhecia. Como sempre houve uma discussão do trabalho, entre o apresentador, o Professor e toda a turma e, no final da aula, dirigi-me ao meu colega para lhe dar os parabéns e, também, para nos conhecermos melhor.
            O rapaz chamava-se Luís Martins, ficámos amigos e nunca mais esqueci aquela lúcida exposição que não se ficava pela Filosofia, mas enveredava por outras ciências sociais, nomeadamente, a História, a Economia e a Sociologia.
            Creio que no ano seguinte, ainda fomos colegas num seminário sobre “Aristóteles”, também orientado pelo padre Manuel Antunes, porém, com o 5º ano e o fim do curso, ambos começámos a dar aulas e, como é natural nestas coisas da vida, cada um seguiu o seu caminho e estivemos muitos anos sem nos encontrarmos.
            Como sempre, continuei a frequentar as livrarias e a estar atento a tudo o que saía de livros. Um dia, numa dessas digressões culturais, encontrei o João Francisco, um outro colega, este do meu curso, que já não via há anos. Entre as coisas que, fatalmente, se falam, quando se encontra um colega, é das pessoas que connosco viveram e partilharam tantos anos de magistério. O que é feito de fulano?, Nunca mais vi beltrana? E sicrano, sabes dele? Então não é que o João me pergunta, se eu dera pela saída de um livro que fazia uma análise sobre a obra do Nobel português, intitulado Narração, Maravilhoso, Trágico e Sagrado em Memorial do Convento, de José Saramago Sim, trata-se de um ensaio. Mas porquê?, indaguei. Foi aí que o João Francisco desvendou este mistério: - È que foi escrito por um tal Miguel Real, que é o pseudónimo do nosso amigo e colega, Luís Martins.
publicado por cempalavras às 22:13
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