Terça-feira, 16 de Junho de 2009

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DA MEMÓRIA…JOSÉ LANÇA-COELHO
 
OS MEUS AMIGOS ESCRITORES
 
1 – ANTÓNIO BARAHONA
 
            Depois de ter escrito sobre o meu amigo Miguel Real, lembrei-me de todos os meus colegas que têm o estatuto de escritor, uns mais conhecidos, outros menos conhecidos (como eu) do grande público, e assim decidi escrever as minhas memórias acerca deles.
            Se me esquecer de algum, ele que me perdoe, pois se o omito é apenas porque a minha memória já não é o que era.
            Assim, da minha geração da Faculdade de Letras, recordo-me da: Luísa Costa Gomes, Filomena Oliveira, do João Barreiros, Manuel Joaquim Gandra, André Gomes, João Seabra Botelho.
            Desde que ganhei a paixão pelos livros, treze, catorze anos, que uma das minhas ambições era conhecer um escritor em carne e osso, e com ele trocar impressões, falar das leituras. Só com vinte e dois anos realizei esse sonho, quando conheci pessoalmente o poeta António Barahona. Mal sabia eu que, todos os nomes que citei atrás, eram escritores em formação e que conviviam quotidianamente comigo, pois todos eles eram meus colegas no curso de Filosofia da Faculdade de Letras. Tirando a Luísa Costa Gomes que estava um ano à frente, todos os outros eram meus colegas de ano, porém, a Luísa era minha vizinha de prédio, morava no andar por baixo do meu, em Paço de Arcos.
            Começarei então por escrever sobre o primeiro escritor que conheci pessoalmente.
            Em 1972, andava eu no 1º ano do curso de Filosofia da Faculdade de Letras de Lisboa, quando passava muitas tardes no “Pavilhão Jardim”, nome do café sito no jardim de Paço de Arcos, a estudar os textos dos filósofos gregos pré-socráticos.
            Um dos frequentadores daquele café era um homem de aspecto um pouco estranho, com o cabelo rapado e barba comprida. Vestia quase sempre uma túnica imaculadamente alva e carregava inúmeros livros debaixo do braço.
            Quando passava junto à sua mesa, olhava para lá, como quem não quer a coisa, e via folhas de caderno escritas a caneta de tinta permanente preta, numa linguagem completamente desconhecida para mim.
            Apenas sabia que o homem era poeta, embora nunca tivesse lido nada escrito por ele. Uma tarde, para minha surpresa, reparei que sentado à sua mesa, estava o Marcial, um colega de curso que habitava em Oeiras.
            Pus o ouvido à escuta e percebi que falavam de Heraclito de Éfeso, um dos filósofos gregos do século IV a. C. O enigmático poeta discorria sobre o pensador, como se fosse um professor da faculdade, mostrando como estava seguro acerca do conhecimento do seu sistema e da sua biografia.
            Era a altura ideal para entrar na conversa e foi o que fiz. A partir deste momento, o poeta começou a falar comigo. Deslumbrei-me com a sua cultura geral, pois tanto falava dos filósofos que eu estudava na faculdade, como dos escritores que eu lia nas horas vagas, e ainda, de personalidades dos diversos campos do conhecimento humano de que eu nunca ouvira falar.
            Numa das tardes de café, que a partir desse dia começámos a cultivar, o poeta confessou-me que, a partir dos quinze anos, faltava às aulas do liceu para frequentar a Biblioteca Nacional, lendo apenas o que lhe interessava, daí a sua fabulosa cultura geral.
            Mais tarde, descobri que aquelas folhas enigmáticas, cheias de uma escrita desconhecida traçada a tinta preta de caneta permanente, não era mais nem menos do que árabe. Também essa língua ele dominava!, para além do latim e do grego.
            A partir de certo momento, começou a oferecer-me os seus livros de poesia, com uma dedicatória escrita em árabe, que depois me traduzia e que dizia assim – “Deus é Grande, Bom e Misericordioso”. Ficámos amigos para sempre.
            António Barahona assim se chama o poeta, este homem bom, que foi o primeiro escritor que conheci.
publicado por cempalavras às 22:25
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