Segunda-feira, 14 de Junho de 2010

CONTO DE JOSÉ LANÇA-COELHO

PESADELO DE 3%

 

         Recebi, ontem, uma notificação, para me apresentar o mais depressa possível nas Finanças, com a finalidade de pagar uma coima extraordinária de mais 3% no IVA.

         Como sabem, o governo aumentou o imposto de valor acrescentado, vulgo IVA, de 1% sobre os produtos que são considerados de primeira e de segunda necessidade

Porém, não informou, nem divulgou, o que me disse a senhora que, simpaticamente, me atendeu nas Finanças, e que passo a explicar:

- Todos os habitantes de Portugal passarão a pagar mais 1% de IVA, quer nos produtos de primeira (6%), como de segunda (21%) necessidade;

- Quando qualquer contribuinte comprar um produto igual a um dos possuídos por um membro do governo, deverá pagar seis vezes mais do que o aumento do imposto agora proposto, portanto 11% nos produtos de primeira qualidade e 26% nos de segunda qualidade;

- Se o contribuinte não comprar, mas sonhar, em adquirir um produto de qualquer tipo que seja posse de um membro do governo, deverá pagar três vezes mais o aumento do imposto agora obrigatório, portanto 8% nos produtos de primeira qualidade e 24% nos de segunda qualidade;

         Portanto, como a coima que me queriam obrigar a pagar era de 3% no IVA, só podia ser relativa a um sonho, e sendo assim, perguntei, como podiam as Finanças ter adivinhado o meu sonho? , se nunca, mas nunca, falara dele a ninguém.

         Foi-me então dito que, - ideia que nunca me passara pela cabeça -, todos os aparelhos de televisão, por mais pequenos que sejam, são providos de uma rara gama de feixes hertzianos que têm a possibilidade de captar os sonhos das pessoas que vivem nas casas onde estão colocados e, ao mesmo tempo, transmiti-los para uma central, onde especialistas os podiam descodificar e analisar (o Big Brother do ‘1984’ de George Orwell, não é ficção científica).

Servindo-se desta inovação tecnológica, as Finanças puderam saber o conteúdo do meu sonho e, lançar o imposto de 3% sobre o valor do produto com que sonhei – um automóvel sport, vermelho, descapotável, que custa à saída do stand 50 mil euros e que, para meu azar, é propriedade de um dos ministros actuais -, portanto, terei de pagar um imposto de 1500 euros, valor superior à minha pensão de reforma de professor efectivo do Ministério da Educação, e que por isso terei de esperar pelo mês de Julho, momento em que espero me paguem em dinheiro o subsídio de férias, sem fruir absolutamente nada do automóvel, exceptuando a emoção que senti ao conduzi-lo, virtualmente.

JÁ NEM SONHAR SE PODE, SEM PAGAR IMPOSTO!

É o que me apetece gritar aos quatro ventos, mas não o faço, porque alguém me disse que há, também, um novo imposto, para quem fale mais alto que os membros do governo e, sinceramente, não quero que me tirem nenhuma parcela do já sacrificado subsídio de Natal que, também vai ser taxado com um imposto.

E todos estes sacrifícios para quê?

Para acabar com a alta taxa de desemprego? Para dar melhores condições de vida a quem trabalha? Para que todos tenham pão para comer e o possam dar aos seus pequenos filhos? Para aumentar a celeridade da Justiça no país? Para os hospitais funcionarem melhor, existindo mais camas e com melhores condições? Para implementar mais educação e instrução (dois campos que sistematicamente se confundem) para o povo?

NÃO! TUDO ISTO É ENCARADO PELO PODER COMO SIMPLES E MESQUINHOS PORMENORES!

O que se torna necessário contemplar são as condições de vida dos ministros, deputados e quejandos, como a substituição dos carros em que se deslocam que já têm mais de um ano de vida, sejam descapotáveis (como aquele com que sonhei) ou não, as ajudas de custo para as viagens que não podem ser feitas senão em classe de executivo, o aumento das despesas de representação, de flores, disto e daquilo, até ao ridículo extremo da edificação de caras salas de fumo para suas excelências se encherem de tabaco, que podiam expelir num dos muitos pátios em que a Assembleia é fértil, como fazem os simples trabalhadores das instituições públicas e privadas que têm esse vício.

No momento seguinte, virei-me para o outro lado e, acordei! Acordei?! Sim, tudo o que até aqui foi dito não passa de um sonho, melhor, de um pesadelo, um pesadelo de 3%. E como Candide, o personagem principal do livro do mesmo nome escrito por Voltaire, saio a correr aos gritos pela rua, exclamando: “VIVEMOS NO MELHOR DOS MUNDOS!”

 

publicado por cempalavras às 23:17
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