Segunda-feira, 14 de Junho de 2010

RICARDO REIS - UM HETERONIMO DE FERNANDO PESSOA

DA MEMÓRIA… JOSÉ LANÇA-COELHO

 

QUEM ÉS TU RICARDO REIS?

 

         Fernando Pessoa foi o criador de Ricardo Reis, pois trata-se de um dos múltiplos heterónimos desse fabuloso escritor.

         Vejamos, então, como Pessoa define o processo de criação de Ricardo Reis, que terá nascido em 29 de Janeiro de 1914, às 11 horas da noite: “Eu estivera ouvindo no dia anterior uma discussão extensa sobre os excessos, especialmente de realização, da arte moderna. Segundo o meu processo de sentir as cousas sem as sentir, fui-me deixando ir na onda dessa reacção momentânea. Quando reparei em que estava pensando, vi que tinha erguido uma teoria neoclássica, e que ia desenvolvendo. Achei-a bela e calculei interessante se a desenvolvesse segundo princípios que não adopto nem aceito. Ocorreu-me a ideia de a tornar um neoclássico «científico» (…) reagir contra duas correntes – tanto contra o romantismo moderno, como contra o neo-classicismo à Maurras (…)”.

         Mais tarde, no ano da sua morte, na célebre carta de 13-1-1935, a Adolfo Casais Monteiro, Pessoa fornece dados sobre o nascimento de Ricardo Reis que, não são consentâneos com a informação transcrita acima:

“Ricardo Reis nasceu em 1887 (não me lembro do dia e do mês, mas tenho-os algures), no Porto, é médico e está presentemente no Brasil, é um pouco, mas muito pouco, mais baixo, mais forte, mais seco que Alberto Caeiro [sublinhado nosso] . De cara rapada (como os outros), porém, de um vago moreno mate. Educado num colégio de jesuítas, é, como se disse, médico; vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico. É um latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria. [A poesia de Reis surge] depois de uma deliberação abstracta, que subitamente se concretiza numa ode”.

         A carta de 13-1-1935 relativamente à primeira frase transcrita apresenta, também, grandes divergências no concernente ao nascimento de Ricardo Reis. Vejamos o que aí diz Pessoa a este respeito:

“Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas coisas em verso irregular (não no estilo Álvaro de Campos [sublinhado nosso], mas num estilo de meia regularidade), e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo (Tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis)”.

         Com o aparecimento, em Março de 1914, de Alberto Caeiro, foram inventados os discípulos:

         “Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si-mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo, Álvaro de Campos.”

         De frisar, também, no nascimento dos heterónimos, o alheamento assumido por Pessoa na impotência de controlar as ideias de cada uma das personagens que criou:

         “Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critério, e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve. Parece que tudo se passou independentemente de mim. E parece que assim ainda se passa. Se algum dia eu puder publicar a discussão estética entre Ricardo Reis e Álvaro de Campos, verá como eles são diferentes e como eu não sou nada na matéria.”

         De acordo com as informações de Pessoa, Ricardo Reis terá escrito 35 poemas em Portugal e 89 “no Brasil” – para onde terá ido em 1919 e, onde ainda vivia em 1935 – onde se incluem os 13 não datados e, nestes, os 4 publicados na revista Athena, em 1924.

         Curioso é também o facto de Ricardo Reis não ter produzido qualquer poema, quer em 1919, ano em que imigrou para o Brasil por ser monárquico por convicção política, quer em 1920, quando já tinha imigrado.

         Ricardo Reis, de quem não há indícios que tenha voltado a Portugal – tirando a ficção escrita por José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis – escreveu mais poemas “no Brasil” do que no seu país de origem, de acordo com o pessoano “drama em gente”.

 

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publicado por cempalavras às 23:19
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