Quarta-feira, 3 de Novembro de 2010

HISTÓRIA UNIVERSAL

DA MEMÓRIA… JOSÉ LANÇA-COELHO

 

ADOLFO EICHMANN

 

EICHMANN (Solingen, 19 de Março de 1906 – Ramia, 1 de Junho de 1962) Foi o grande responsável pelo extermínio de milhões de pessoas em campos de concentração, durante a 2ª Guerra Mundial, historicamente conhecido por «Solução final». Após a Guerra conseguiu fugir para a Argentina, em 1950, com um passaporte falso emitido pela Cruz Vermelha. Dez anos depois, foi raptado por um comando da Mossad que o trouxe para Israel, onde foi julgado e condenado à morte por enforcamento.

Após esta terrível apresentação, ouçamos o que diz dele, o filósofo italiano Cláudio Magris: “Era sincero quando em Jerusalém ficou horrorizado ao descobrir que o pai do capitão Less, o oficial israelita que o interrogara durante meses e para com o qual ele experimentara um profundo respeito, morrera em Aushwitz.. Horrorizado, porque a sua falta de imaginação o impedira de descobrir nas listas das suas vítimas rostos, feições, olhares, homens concretos. (Cláudio Magris, Danúbio, p. 40)

         Para nos admirarmos ainda mais com as contradições deste assassino, ouçamos o que diz o mesmo filósofo a seu respeito: “Em 1934, refugiou-se no convento de Windberg, durante uma semana, Adolf Eichmann, numa espécie de retiro espiritual. No álbum dos hóspedes, está ainda, escrito pelo seu punho, o agradecimento pela estada e pela hospitalidade recebida, a expressão de uma experiência intensa e de um comovido apego: “Treue um Treue”, fidelidade por fidelidade, escreve Eichmann no livro do convento a 7 de Maio de 1934. O tecnocrata do massacre gosta da meditação, do recolhimento interior, da paz dos bosques, talvez até da oração. (Idem, id., p. 104)

         O protocolo do interrogatório de Eichmann é um documento extremo de uma parcelarização da existência, da pessoa e do seu agir, que abole responsabilidade e criatividade. Eichmann não mata, trata da deportação e transporte dos que devem ser mortos; a responsabilidade parece não afectar ninguém – porque ninguém, nem mesmo no mais alto posto, passa do elo de uma cadeia de transmissão de ordens – ou afectar todos, incluindo por exemplo as organizações judaicas, que os nazis obrigam a colaborar na escolha dos judeus a deportar. Nestas escadas, o indivíduo sente-se um dos grandes números triturados pelo Espírito do Mundo que evidentemente dá mostras de desequilíbrio mental, um desses números de inscrição que a secção competente do Lager tatuava no braço dos detidos.

         Mas nestes degraus o indivíduo soube também tornar-se único e imprescindível. A mulher jovem que, à entrada da câmara de gás de Auschwitz, se volta para Hoss e lhe diz, desdenhosamente, que não quis fazer-se seleccionar para o trabalho, como lhe teria sido possível conseguir, para acompanhar as crianças que lhe haviam sido confiadas, e que depois avança tranquilamente com elas para a morte, é a prova da incrível resistência que o indivíduo pode opor àquilo que ameaça aniquilar a sua dignidade, o seu sentido. (Id., id., p. 133)

 

         Se gostou de saber estas “Inconfidências”, venha ouvir mais, acerca de outros personagens da Humanidade – escritores, filósofos, pintores, etc. – numa conversa que levo a efeito na Livraria/Galeria Verney, no centro de Oeiras, frente à Igreja Matriz, quinta-feira, dia 4 de Novembro, às 16 horas.

publicado por cempalavras às 23:05
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1 comentário:
De poetaporkedeusker a 4 de Novembro de 2010 às 17:16
José, sinto-me na obrigação de lhe pedir desculpa por não ter conseguido estar presente na sua palestra de hoje.
Pedi boleia a um amigo que se esqueceu completamente e, entretanto, teve outros compromissos.
Fica para uma próxima, sem falta!

M. João


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