Quinta-feira, 9 de Dezembro de 2010

CONTO

         DA MEMÓRIA… JOSÉ LANÇA-COELHO

 

A GUERRILHA RURAL DO SR. SILVA

 

         O Sr. Silva é um velhote de quase oitenta anos – ele recusa-se a dizer a sua idade seja a quem for e aqui na aldeia ninguém sabe ao certo as primaveras que já viveu – de quem tenho a sorte de ser vizinho aqui no Alentejo, pois o seu monte fica mesmo ao lado do meu.

         Há catorze anos que tenho a sorte de ouvir as suas sábias palavras. Com seis anos começou a guardar gado, dormindo debaixo de um chaparro, às vezes de guarda-chuva aberto, quando ‘o astro’ – como ele diz – se lembrava de despejar água aos potes cá para baixo. Andou à escola alguns meses, pois o trabalho não lhe permitia grandes luxos, mas mesmo assim escreve numa letra de médico os versos irónicos que inventa e me recita de cor diariamente. Tem uma memória fabulosa, sabe milhares de versos, inventados por si, mas quando um grãozinho de terra atrapalha o bom andamento da engrenagem e uma estrofe, a que ele chama uma ‘carreira’, não sai, lá se queixa

         - é a ‘calsete’ que emperrou mas ela já dá a volta e eu já me lembro

         E o Sr. Silva lembra-se sempre das palavras com que fustiga e brinca com o governo, com a trágica situação política e económica do país, com as mulheres, com nosso senhor, com a vida e com a morte.

         Foi ele que me ensinou a plantar as batatas, as favas, as couves, as alfaces, as ervilhas, a podar as oliveiras, as videiras, a enxertar as árvores de fruto, embora esta última tarefa nunca a tenha conseguido levar a bom termo. Há dias apanhou-me sentado numa pequena cadeira de verga a colher azeitonas, tinha eu os rins a rebentar com dores da desabituação destes esforços. O que ele se riu ao mesmo tempo que me atirou

         - ó sr. professor a trabalhar sentado! Eu trabalho bem é deitado!

         Que lhe havia de dizer? Ri-me e informei-o que a sua mulher passara aqui há pouco. Sabem o que me respondeu o Sr. Silva também a rir, com aquele ar malandro que o caracteriza?

         - deixá-la ir, só preciso dela logo à noite!

         E as expressões que tenho aprendido com o meu vizinho? São demais, com aquela naturalidade que só a natureza sabe transmitir às palavras. Ouçam esta, um dia perguntei ao Sr. Silva se no dia anterior chovera muito, ao que ele me respondeu

         - choveu um bocado, mas depois ‘escambou’ e não caiu mais água

         Citadino, desconhecendo a linguagem do campo, adoptei esta palavra como correcta, até que um dia a ler um livro de José Saramago, aprendi que a palavra certa era ‘escampou’.

         Há dias, quando este governo se lembrou de aumentar o IVA para 23%  e falou no PEC, fui visitar o meu vizinho que andava a plantar couves e alfaces. Andara atrás da burra a manhã inteira, a gradar a terra e, depois do solo arranjado, estava a dispor uma mão cheia daqueles legumes. Quando me viu, disse-me

         - ó vizinho ainda bem que apareceu, estava a pensar em ir levar-lhe uns pezinhos de couves para o caldo, e nem que o governo se pinte não recebe daqui nada para o IVA ou lá o que é isso, era o que faltava roubarem-me 23% duma coisa que eu é que tenho o trabalho todo para conseguir cultivar, ando ao vento e à chuva, aqui atrás da burra a apanhar coices, dobrado a tirar ervas, para os gajos lá de Lisboa, que não fazem nenhum e ganham fortunas, me virem tirar o pão da boca, isso é que era bom. Também já dei um molho ao compadre Chico e a mulher levou outro para casa do meu filho. E já meti na cabeça que tudo o que produzo e possa dar aos amigos e conhecidos, o governo não vai pôr a pata. Era o que faltava!

         Sem saber, o meu vizinho Silva, alentejano de boa cepa, fazia uma guerrilha rural contra as decisões impostas pelo governo, que, se fosse seguida por todos os agricultores, originaria uma tenaz insurreição contra as medidas que, à força lhes querem impor, sem sequer os consultarem. A ele com quem nunca se preocuparam, se tinha alimentos para comer, ou casa para o proteger das intempéries. Bem podem aumentar o IVA ou outros impostos que, não apanham o meu vizinho nas malhas das suas tristes artimanhas! Ele é auto-suficiente, apesar da nenhuma instrução que o Estado lhe deu!

publicado por cempalavras às 23:13
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