Domingo, 23 de Setembro de 2012

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“A LANÇA”

23 SETEMBRO 2012

JORNAL DE CULTURA

MARIA TERESA HORTA VS. PASSOS COELHO

COM A MARQUESA DE ALORNA NO MEIO

         Como foi largamente divulgado pelos meios de comunicação, a escritora Maria Teresa Horta acaba de ganhar o Prémio Literário D. Dinis, dado pela Casa de Mateus, com o seu romance histórico A Luzes de Leonor. No entanto, a autora afirmou que, embora se sinta honrada pelo prémio que lhe foi concedido e pelos membros do júri, se recusa a recebê-lo das mãos do primeiro-ministro Passos Coelho que, nas suas próprias palavras, «está a destruir o nosso país».

         Na minha modesta opinião de leitor compulsivo que lê cerca de sessenta livros anualmente, a obra em questão foi o melhor romance histórico publicado este ano, sendo de inteira justiça o galardão agora atribuído.

Podemos considerá-lo um fresco sobre a cultura do século XVIII, tanto em Portugal, como na Europa, em especial, na França. Todos os literatos e filósofos portugueses se relacionam com Leonor, primeiro visitando-a na grade do convento de Chelas, local para onde a envia o Marquês de Pombal, e depois nos seus salões, embora estes continuem a ser vigiados pelo Intendente da Polícia Pina Manique, após a restituição da liberdade. De Bocage a Filinto Elísio, de Correia Garção a Bingre (p. 77), de Teresa de Mello Breyner (p.674) a Joana Isabel Forjaz (a poetisa mais controversa de Lisboa na época) estão lá todos. Os grandes filósofos da época das Luzes, nomeadamente, Voltaire, Rousseau, Kant, e os poetas, Lamartine, Goethe, Schiller, além de autores completamente desconhecidos em Portugal, como William Blake (p. 956) e Choderlos de Laclos, e outros, são lidos por Leonor e aconselhados como marcos de pensamento às filhas. (p.781) Também as grandes mulheres da época como, Théroigne de Méricourt, Olympe de Gouges, Etta Lubina, Germaine de Stael, Marie Anne Vigée-Lebrun, Sophie de Condorcet, Elizabeth Vigée-Lebrun e Suzanne Necker, estão presentes nas leituras da Marquesa de Alorna. Esta, também condessa de Oeynhausen, fundou a «Sociedade da Rosa», sendo acusada de ser uma loja maçónica, embora fosse apenas um salão, onde sobretudo se dizia poesia, cantava e tocava piano. Até os políticos franceses da época receavam a sua influência: Talleyrand insiste na urgência de se afastar Leonor da corte, enquanto Fouché defende a expulsão da marquesa de Portugal, cada vez mais certo da importância dela enquanto elemento da ligação entre a Vendeia e a fidalguia portuguesa. Napoleão inquieta-se e ordena que sejam enviados despachos nesse sentido, a pressionar o Regente (futuro D. João VI) que, pressentindo o perigo, se deixa enredar, como sempre temendo as palavras de mando. (p. 992)

Procurámos na vasta hemeroteca de «A LANÇA» a pasta relativa à autora e, entre outras curiosidades, encontrámos uma carta que Maria Teresa Horta escreveu à sua tetravó, relacionada com a obra em destaque, e publicou no JL, nº 973, de 16 a 29 de Janeiro de 2008. É essa carta que transcrevemos de seguida.

                                                    José Lança-Coelho

 

CARTA A…

LEONOR, MARQUESA DE ALORNA

  • MARIA TERESA HORTA

Minha querida avó do meu coração,

 

Não sei se vais sequer abrir a minha carta, depois de tanto ter vindo a desinquietar-te na morte, a rebuscar tua vida, querendo saber dela no extremo, ou tudo dela no excesso, enquanto te procuro e vou, minuciosa, atrás do destino por ti determinado e que eu reconstituo através da minha escrita, tu passando de realidade a personagem de um romance, onde tão depressa cumpro com rigor as tuas datas e gestos e factos e partos e poemas, como te invento a partir de mim mesma, teus versos, cadernos, cartas, diários. Insubmissa, no desenho árduo de um perfil de mulher em desobediência à sua sorte.

Imagino-te e recrio-te, procuro-te, persigo-te, no convento, no Paço, de país em país, por veredas e atalhos. Sigo-te o trilho de mulher incendiada: nossos sangues, dirias, e eu digo genes em correnteza de avós e filhas e netas, tu de Leonor de Távora gume e aço, e eu de ti em busca do voo de asa. Mas a preferir-te, a reconhecer-te melhor nas paixões, nos desacertos, nas impaciências, no corpo da escrita, no sobressalto, no desatino, na poesia inesperada.

E adorando-te Leonor por tudo isso.

Não sei se vais sequer abrir a minha carta, por te parecer demasiado obsessiva no pintar teu retrato, escrever-te no descrever-te: de mel e nardo e tumulto, a reconstruir-te com minúcia na determinação, nas Luzes, na perseverança, nos sustos e medos que levantavas. Neste jogo de ambas, por entre os enleios de que são feitas as palavras de te construir: fogo, desobediência, aprisco. A entretecer-te ao longo destes anos, a sentir os teus dedos aflorando o meu ombro: a tua mão invisível, sem peso, debruçada a leres o que escrevo, numa atenção que aceito; aprendendo a reconhecer o som dos teus passos inexistentes, o sussurro da cauda do teu vestido, num requebro de pássaro. Porque eu continuo a inventar-te a partir de uma comum origem, desenho a tinta cor de ferrugem do teu tinteiro de prata.

Achando o teu traço.

Meu embaraço, ao perceber que lês mais as minhas do que as tuas palavras. Surpreendo-me ao querer-te e acabo-me no observar-te, no espiar-te, no escutar-te perto, na devassa da intimidade. Mostrando-te contraditória e demasiado intensa para o desejo que tinhas de te identificares com a Razão, leitora ardorosa de Rousseau, de Voltaire e de Byron, mas também de Teresa de Ávila e de Hildegarde de Bingen.

Volteias e reclinas-te.

Não sei se vais sequer abrir a minha carta, perplexa por eu te despertar, menos Orfeu do que Eurídice na descida ao esquecimento onde estavas, a pesar-te o silêncio e a solidão de poetisa; insatisfação sem partilha, nem o atestar do teu talento literário e de tudo o mais que te movia. Agora já consigo antever-te rapariga, olhar de urdidura turvado pelo desagrado, contrariando quem te queria amordaçar e destrui-te a ambição, em oposição aos déspotas; primeiro entre pai e padres, freires e confessores, mais tarde na Corte e em salões literários, aturdidos diante do teu brilho.

Tu cindida.

Tu de versos, de seda e sede e cetim, olhar de cinza acesa, sem nunca te estilhaçares, quebrares, temeres abrir a caixa de Pandora pois guardavas a esperança. Tenaz e engenhosa na volúpia de enfrentar as adversidades.

Dúplice.

Não se vais sequer abrir a minha carta, surpreendida na morte, com a inesperada vida que te ofereço. Pudesse dar-te eu a eternidade, a posteridade que tanto almejaste, o luzimento Leonor que tu mereces.

Esta neta a mais terna

T.

publicado por cempalavras às 18:21
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