Quinta-feira, 19 de Dezembro de 2013

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ALBERT CAMUS (1913-2013)

1º CENTENÁRIO DO NASCIMENTO

        Albert Camus nasceu em 7 de Novembro de 1913, na pequena aldeia de Mondovi, na Argélia, filho de um trabalhador agrícola descendente de colonos pobres franceses, que morreria na batalha do Marne durante a 1ª Guerra Mundial, quando Camus tinha um ano de idade.

        A mãe de Camus, descendente de imigrantes espanhóis, mudou-se com os dois filhos para Argel, logo que enviuvou, passando a habitar o bairro de Belcourt, onde Albert passou a sua infância e adolescência, conhecendo inúmeras necessidades materiais.

        Durante a escola primária, revela-se um aluno brilhante. O seu professor, Louis Germain, interessa-se pelo jovem, conseguindo que lhe fosse concedida uma bolsa de estudos para continuar o ensino secundário.

        O ano de 1930 é uma data importantíssima na biografia de Camus, pois é nele que se delineia o futuro do grande escritor. Por um lado, ainda antes de completar os dezassete anos, entra na Faculdade de Letras, onde outro professor, Jean Garnier, irá ter grande influência sobre ele, após descobrir as suas qualidades. É ele que o desperta para a filosofia e, o leva a querer ser escritor; por outro, e já com os 17 anos feitos, contrai uma tuberculose que o arreda da carreira universitária, conduzindo-o para o jornalismo, que exercerá ao lado de Pascal Picabia.

        A tuberculose mostra-lhe a solidão e a mortalidade a que todo o ser humano está sujeito. Camus encara-a como uma doença «metafísica», e deleita-se com a leitura de dois livros, A Montanha Mágica de Thomas Mann e o Diário de Katherine Mansfield. Porém, as suas leituras não se ficam por aqui, mostrando um grande ecletismo que passa por escritores tão díspares como, Epicteto, Kierkegaard, Malraux, Gide, Proust, Dostoievski.

        Apesar da doença, Camus pratica desporto, nomeadamente, futebol, jogando a guarda-redes no Racing Universitário de Argel.

        Camus estreia-se nas Letras, em 1932, com Ensaio sobre a Música, interpretação romântica do Nascimento da Tragédia do filósofo alemão Nietzsche.

        Dois anos depois, motivado pelo convívio com os argelinos pobres, adere ao Partido Comunista Francês, (que abandonará em 1936), desenvolvendo intensa propaganda política entre os árabes.

        Em 1935, dando azo ao seu profundo interesse pelo teatro, fundou o grupo Théâtre du Travail, com o qual fará uma digressão pela Argélia, com a peça colectiva Revolta nas Astúrias. Tanto neste grupo, como no seguinte, Théâtre de l’Équipe, Camus ocupará todos os lugares da arte cénica, autor, actor, encenador, desempenhando, entre outros papéis, o de Ivan em Os Irmãos Karamazov de Dostoievski, e, o Don Juan de Puchkine.

        Em 1937, publica O Avesso e o Direito.

No jornalismo é redactor no diário liberal «Alger Républicain» que rivalizava com a imprensa oficial, e onde Camus denunciava as injustiças do colonialismo. O início da 2ª Guerra Mundial em 1939 e a censura à imprensa vêm coartar a sua actividade jornalística, embora Albert tente contornar a situação através do humor, porém, os censores não compartilham desta receita, e assim, no ano seguinte (1940), Camus é aconselhado pelo governador-geral a abandonar Argel. Dirige-se, então, a Paris, onde será secretário de redacção no «Paris-Soir».

        1940 é um ano de grande actividade literária, em que Camus escreve a primeira versão de Calígula, Núpcias e, O Estrangeiro, começando também a escrever O Mito de Sísifo.

        Em 1942, Camus passa a trabalhar na editora Gallimard. As suas obras cuja temática são o absurdo, juntamente com o amor pelo teatro, irão ligá-lo a Sartre e à sua companheira Simone de Beauvoir, e ao «Existencialismo», do qual nunca fará parte.

        Em plena 2ª Guerra Mundial, durante a ocupação alemã da França, Camus participa na resistência, dirigindo o jornal clandestino «Combat», ao mesmo tempo que, publica clandestinamente, as primeiras Cartas a um Amigo Alemão, onde manifesta a sua oposição ao absurdo, ao mesmo tempo que, mostra compreender os extremos que podem conduzir a determinadas interpretações do pensamento nietzscheniano. 

        Após a 2ª Guerra Mundial, a obra de Camus atinge uma maior notoriedade, como é exemplo significativo O Estrangeiro (1942), que se torna um campeão de vendas. Ao mesmo tempo, as suas peças O Equívoco (1944), Calígula (1945), e, Estado de Sítio (1948), são representadas nas datas que se encontram entre parêntesis.

        1951 é o ano que marca o rompimento entre Camus e Sartre, e o afastamento definitivo do primeiro do «Existencialismo». Ambos os factos derivam de um ataque feito pela revista «Temps Modernes».

        O rompimento com o Existencialismo a par duma incapacidade para escolher um dos lados do conflito argelino, valeram-lhe inúmeros ataques e incompreensões.

        Embora o existencialismo francês radique, entre outros, em três filósofos charneira – Heidegger, Husserl e Kierkeegaard – que, por sua vez e, pela mesma ordem, servirão de inspiração a, Sartre, Merleau-Ponty e Gabriel Marcel, ele apresenta uma matriz original que, se afirma como um produto típico do espírito francês. É neste contexto que se insere Albert Camus, mas apenas no campo do ensaio, e não como um filósofo existencialista, uma vez que, apenas absorve desta filosofia o projecto do ser estranho ao mundo e das formas com que se apresenta o absurdo.

Relativamente a Heidegger, Camus aflora-o apenas, na época de O Ser e o Tempo, e, Kant e o Problema da Metafísica, servindo-se dos conceitos da inquietação, do medo e do existir para a morte, e da asserção implícita na segunda obra heideggeriana, «que o mundo nada mais pode oferecer ao homem angustiado». Porém, de um ponto de vista histórico, foi nesse filósofo que a consciência do absurdo encontrou a sua inicial articulação conceptual.

Ainda tendo Heidegger como «ponto de mira», Camus debruça-se sobre a época da interpretação de Holderlin e Nietzsche, bem como a última filosofia heideggeriana do ser, isto é, a da sua interpretação da linguagem ou a da filosofia que tem por base a sabedoria etimológica da língua, e aqui, o autor de O Mito de Sísifo, afirma a sua não revolta no absurdo da imanência, bem como o seu caminhar em direcção à transcendência e, por consequência, ao pensamento mítico.

        Em 1957, Camus ganhou o Prémio Nobel da Literatura.

        A 4 de Janeiro de 1960, Albert Camus faleceu vitimado por um acidente de automóvel, quando regressava a Paris. O desastre deu-se numa recta, onde já se tinham verificado outros acidentes. Louis Pauwels e Jacques Bergier no seu livro O Despertar dos Mágicos (1960) explicaram a causa de todos estes inexplicáveis acidentes num local que, do ponto de vista rodoviária, não constituía qualquer perigo. Os dois escritores viram que existia num dos lados da estrada um bosque, e que, a uma determinada velocidade de um veículo, o sol que passava entre as árvores que constituíam o bosque já referido, batia nos olhos do condutor, num determinado tempo de intervalo, que afectava o cérebro de quem guiava. Era essa a causa dos inexplicáveis despistes numa recta sem nenhuma perigosidade.

        Quando faleceu, Albert Camus terminava um novo romance, intitulado O Primeiro Homem, que foi publicado em 1994.

 

JOSÉ LANÇA-COELHO

publicado por cempalavras às 23:38
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