Terça-feira, 23 de Outubro de 2007

2007 - ANO MIGUEL TORGA

DA MEMÓRIA… JOSÉ LANÇA-COELHO

 

QUANDO A PSP ME IDENTIFICOU POR NÃO IR ÀS AULAS

 

            Acontecimentos recentes trouxeram-me à memória o seguinte episódio.

Corria o ano de 1969, e a minha vida de estudante situava-se no 1º ano do Instituto Comercial de Lisboa (ICL), o equivalente ao10º ano de escolaridade em termos actuais.

             Maio de 68 fora no ano anterior em Paris. Salazar já caíra da cadeira e, por seu turno, Caetano também já mostrara as suas ‘farturas’. De modo que, eu e os meus colegas, com o apoio dos alunos do Instituto Superior de Economia e Finanças, instituição para onde seguiríamos quando acabássemos os dois anos do referido ICL, lutávamos pelo fim do ensino sebenteiro, monocórdico e retrógrado, fazendo greve às aulas.

           Nisto de greves, há sempre uns que fazem e outros que, não querendo saber da solidariedade nem lutar pelos seus direitos, não fazem. Para impedir estes últimos de irem às aulas, criámos piquetes. Foi por isso que o director do ICL chamou a polícia que, ao mesmo tempo, que protegia os ‘amarelos’(os fura-greves), identificava quem barrava a entrada destes últimos na aula, e, por exclusão de partes, quem fazia greve às aulas.

            Foi assim que, a PSP de Marcelo Caetano, me identificou como grevista, e, posteriormente, passou a informação à tenebrosa PIDE, onde o meu avô era chamado inúmeras vezes, por ser Esperantista e receber cartas do estrangeiro, com versos escritos nesta língua, e que eram estúpida e ignorantemente identificadas pelos esbirros desta instituição, com mensagens revolucionárias que pretendiam abalar os alicerces do Estado Novo.

            Alguma vez me passaria pela cabeça que, a PSP se interessaria pelas faltas que eu dava às aulas, fossem por greve ou deixassem de ser? Que tinha a polícia que ver com isso? Isso só me dizia respeito a mim e aos meus pais que pagavam as propinas e olhavam pela minha instrução, coisa a que o regime era completamente alheio. Ou julgam que, como o meu pai tantas vezes me disse, alguém do regime foi lá perguntar a casa, se ele precisava de dinheiro para educar três filhos?

            E, diga-se de passagem, que, havia faltas a algumas aulas em que o professor despejava matéria durante cinquenta loongoos minutos, que só faziam bem ao espírito, se o aluno tinha o sono em dia, caso contrário, era bom ir à aula, para fazer uma soneca.

            Dias depois, o meu colega Saúl era preso pela PIDE, e levado para os calabouços de Caxias, pelo ‘grave crime’ de incitar os colegas à greve.

            A luta estudantil continuaria até a ditadura cair.

 O que a PSP de Caetano não sabia, é que, entre nós, os ‘terríveis grevistas’, que punham em causa o regime, havia um, o Augusto, que a dialéctica da História, o faria vir com o magnânimo Salgueiro Maia de Santarém, na noite mais bonita que eu vivi.

E fez o 25 de Abril de 1974!

Quando os habitantes deste país saudaram a LIBERDADE DE EXPRESSÃO de que se encontravam privados desde o golpe militar de 28 de Maio de 1926.

E ganharam o DIREITO À GREVE sem terem de ser identificados pela PSP, como eu fui em 1969, direito esse que, acontecimentos recentes puseram em causa.

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Quinta-feira, 11 de Outubro de 2007

2007 - ANO MIGUEL TORGA

DA  MEMÓRIA … JOSÉ LANÇA-COELHO

 

O  TAMPÃO

 

            Tenho 16 anos, o meu pai deu-me a chave de casa e, aos sábados, posso entrar até à meia-noite. Ainda não sou completamente livre (sonho de adolescente – como se a liberdade total pudesse existir!).

            Após o jantar vou ter com a malta. Como o costume, não há nada para fazer nesta terra – Paço de Arcos -, ainda tão maravilhosamente provinciana, a meio do cosmopolitismo de Lisboa e de Cascais. Se nos queremos distrair, temos que inventar os nossos próprios divertimentos. Esta noite, o pessoal já resolveu, que vai ser o ‘tampão’, - uma das brincadeiras que mais gosto -, que nos vai fazer rir à gargalhada.

            São dez horas de uma noite fria e húmida, daquelas que nos fazem aquecer as mãos, com o bafo que nos sai da boca. Somos quinze que saímos do ‘Pavilhão’, o café onde nos reunimos ao fim de semana. Em tempo de aulas, só ao sábado à noite, temos ordem de soltura familiar. Alguns de cigarro na boca, caminhando em coluna desordenada, - já não apanhámos a rigidez da Mocidade Portuguesa, ou melhor, da ‘bufa’, como lhe chamamos – vamos povoando a estrada marginal com pirilampos de fogo, em direcção ao descampado parque de automóveis da praia nova.

            Quando lá chegamos, deparamos com meia dúzia de carros parados. Dentro dos pequenos habitáculos móveis, executam-se jogos de amor, que as nossas mentes de adolescentes concebem de acordo com o poder individual de fantasiar. Dirigimo-nos ao local onde temos escondido o brinquedo da noite – um vulgar tampão da roda de um carro meio amolgado, que chegou à nossa posse, proveniente de um dos muitos desastres em que a marginal é pródiga. Está secretamente escondido no meio de um dos arbustos, que formam o muro do citado parque. Uma mão experimentada entra vegetação dentro e, retira de lá, o disco voador que, nos levará à galáxia da paródia. Enrolados à volta do tampão estão 20 m de ‘nylon’ transparente que, não serve só para apanhar peixe. O fio é desenrolado, ficando só uma das extremidades presa ao círculo mágico. O silêncio é total. Aguarda-se a passagem de um carro na direcção Cascais-Lisboa. Ouve-se um barulho na curva das Fontainhas. Logo que o carro passa por nós, uma mão lesta atira o tampão por cima da sebe, que rebolando com um grande alarido, chega até onde a metragem transparente o deixa, uma vez que a outra ponta está presa à mão que o impeliu, ao mesmo tempo que, desperta a atenção do condutor atraído e ludibriado. Segue-se uma inevitável e enorme travagem. O homem pára o carro e, dirige-se rapidamente para o tampão, pensando na sorte que teve em não o perder, ao mesmo tempo que, se esquece de verificar se tem os quatro tampões.

            Por entre as aberturas da sebe, quinze pares de olhos seguem os movimentos do incauto, pescado com 20 m de fio transparente e um insólito isco. O homem já parou frente ao tampão, dobra-se e, banalmente, estende a mão para o apanhar. Quando os seus desavisados dedos estão prestes a tocar o disco do nosso divertimento, a mesma mão que o lançou, dá um forte puxão no fio, fazendo-o deslizar abruptamente na pista de alcatrão. As reacções das ‘vítimas’, com o susto que apanham, são quase sempre as mesmas: o retirar da mão ‘queimada’ de espanto, acompanhado de um salto para trás, evocativo de um medo inesperado de um objecto que, inconscientemente, se sabe não poder mover-se, enquanto os olhos tensos se deslumbram com a incredulidade a que assistem. São segundos inesquecíveis, não só para quem os vive como protagonista principal, como para quem provocou a situação. Dum lado, a ansiedade, do outro, a hilariedade. Sábados houve, em que connosco tivemos vários chefes de família que, depois de serem pescados, se esconderam atrás da sebe da adolescência, partilhando o jogo do tampão.

publicado por cempalavras às 22:00
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2007 - ANO MIGUEL TORGA

DA MEMÓRIA… JOSÉ LANÇA-COELHO

 

TELEMÓVEL – O MELHOR AMIGO DAS MÃES

 

            Ao contrário do escritor José Cardoso Pires que, em muitas crónicas jornalísticas, fustigava os telemóveis e os seus utilizadores, defendo estes instrumentos como uma das melhores – senão a melhor - invenções tecnológicas da pós-modernidade, compreendida entre o final do séc. XX e o início deste séc. XXI.

            Passo por isso a explicar, esta minha posição, tendo como base, uma experiência pessoal, baseada, no título genérico desta crónica semanal, em que apelo à memória.

            Nos inícios dos anos 70 do século passado, tinha por hábito, quando chegavam as férias grandes, ir passar quinze dias ao Algarve, com o meu irmão Guilherme. O meu pai emprestava-nos o seu Triunph Speetfire que, embora só pudesse levar o condutor e um passageiro, acabava sempre por levar mais um passageiro, entre os bancos e a mala, para que assim, a gasolina dividida por três, deixasse mais dinheiro, para ser gasto nas discotecas de Albufeira que, na altura, eram conhecidas por ‘boites’, em que a mais frequentada se chamava «Silvie’s».

            O transporte de um passageiro a mais implicava que fizéssemos a viagem durante a noite, para não sermos multados pela polícia. Assim, depois de umas cervejas no ‘Pombalino’, cervejaria (onde hoje está um Banco) em frente à sede do Clube Desportivo de Paço de Arcos, no largo do cinema (que também já não existe), lá partíamos por volta da uma da manhã, em direcção ao paraíso das inglesas, prontos para o que desse e viesse, com o passageiro clandestino, avisado de que assim que lhe déssemos uma cotovelada, teria que se baixar para não ser visto pela polícia de trânsito.

            Por este tempo, ainda não havia auto-estrada para o Algarve e, a viagem, feita pela serra do Caldeirão, com as suas infinitas curvas – contava-se na altura que eram 365 e que, este elevado número provinha do facto do construtor da estrada ser um engenheiro inglês, que, não percebendo nem se fazendo perceber pelos cantoneiros portugueses, todos os fins do dia quando estes últimos chegavam junto dele e lhe perguntavam, na língua de Camões, se ele gostava do trabalho, o inglês dizia na língua de Shakespeare um simples ‘yes’, o que levava os pouco letrados cantoneiros a deduzir que o súbdito de Sua Majestade queria mais um ‘s’, ou seja, mais duas curvas! - demorava seis a sete horas. Período de tempo que a minha mãe não pregava olho, com a preocupação do que poderia suceder aos seus filhos.

            Eu tinha por missão durante aquela noite, não deixar o meu irmão adormecer ao volante, pois ele era o único que tinha carta de condução. O rádio tocava que se desunhava com as goelas no máximo. Fumávamos, falávamos, mas às 5 da matina era fatal. Dava por mim a acordar e com o meu irmão a sorrir-me, enquanto o carro seguia a sua marcha, sorriso em que estava implícita a pergunta, “Então, assim é que olhaste pela nossa segurança?”. Nesse momento pensava que, se fossemos rádios amadores, poderíamos contactar com a minha mãe e dizer-lhe que a viagem estava, apesar do meu sono, a correr bem.

            Chegávamos à praia por volta das 7,30h e tínhamos que ir tomar banho para não adormecermos ao sol. Às nove, íamos ao Correio, telefonar à minha mãe, dizendo que chegáramos bem. Ora, se fosse hoje, com a existência de telemóveis, poderíamos ligar quando queríamos, dizendo que a viagem estava a correr bem, ou que já terminara. Por isso, é que defendo que, os telemóveis são os melhores amigos das mães, para além de, ao lado do computador, serem os dois melhores inventos do nosso tempo.

publicado por cempalavras às 21:46
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2007 - ANO MIGUEL TORGA

JORNAL

 

“ O  TEU  DIA “

 

16 DE  OUTUBRO

 

 

SIGNO: BALANÇA

 

            Se fazes anos hoje, escreve na linha seguinte, o ano em que nasceste e o teu nome:

____ - Nasceu __________________________________________________________

e recebe os nossos sinceros votos de um:

            FELIZ ANIVERSÁRIO!

         Se não fazes anos, mas é o aniversário de um familiar ou amigo teu, escreve na linha anterior, o ano e o nome dele e oferece-lhe este jornal.

 

 

 

DIA MUNDIAL DA ALIMENTAÇÃO

1847 – Nasce D. Maria Pia de Sabóia, futura rainha de Portugal.

1975 – Forças militares indonésias invadem o território timorense, destruindo algumas localidades da fronteira ocidental de Timor-Leste.

1982 – Morre o poeta e músico Adriano Correia de Oliveira.

 

 

 

 

CURIOSIDADE

 

Em 2009, será inaugurado um parque temático na Florida, EUA, que se chamará ‘O Mundo Mágico de Harry Potter’, terá brinquedos, lojas, incluindo, uma escola de magia.

 

 

 

POEMA

 

                                                 O rosário da vontade,

                                                 Rezei-o trocado e a esmo.

                                                 Se vens dizer-me a verdade,

                                                 Vê lá bem se é isso mesmo.

 

                                                                   FERNANDO PESSOA

PROVÉRBIO

 

 

Quando não o dão os campos, não o dão os santos.

 

 

 

PENSAMENTO

 

 

            “Aquele que não ousa aplicar novos remédios deverá esperar que novos males apareçam.” Roger Bacon (1214?-1284), filósofo inglês.

 

 

 

 

ANEDOTA

 

 

            Um homem caminha numa rua às escuras.

            De repente, com medo de pisar, o seu pára junto a qualquer coisa que vê no chão.

            O homem olha e torna a olhar para ver se descobre o que é, até que se lembra de lhe tocar com um dedo, que depois leva à boca para lamber. Nessa altura, exclama:

            - É cocó de cão, olha se eu pisasse, ahn?!

 

 

 

 

BIOGRAFIA

 

 

ADRIANO  CORREIA  DE  OLIVEIRA

 

 

 

            Nasceu a 9 de Abril de 1942, em Avintes.

            Apesar de ter frequentado o curso de Direito da Universidade de Coimbra, não chegou nunca a formar-se em advocacia.

            O seu nome ficou conhecido pela aliança que soube fazer entre a poesia e a música, e que se traduziu em baladas e canções de intervenção, que tiveram um papel importante na consciencialização política dos problemas que atingiam o povo português, antes da Revolução de 25 de Abril de 1974.

            Faleceu a 16 de Outubro de 1982, em Avintes, com apenas 40 anos.

publicado por cempalavras às 21:41
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