Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2009

KONTO COM KAPA, MAS SEM MEDO

 

QUE FAZER PARA DEIXAR DE SER PORTUGUÊS?
 
            Esta é uma interrogação que me ponho tantas vezes quantos os desvarios que os ‘media’ me revelam a todo o tempo ou que constato quotidianamente
            uma manhã qualquer saio de casa respiro o ar poluído sobre o qual até ver ainda nenhum venerável político se lembrou de nos obrigar a pagar imposto dirijo-me ao carro para involuntariamente ir trabalhar com a finalidade de suster as minhas necessidades económicas e começo a descontar para o Poder explorador
            entro no automóvel cujo preço de custo mais de metade se destina ao imposto que o Estado lança sobre o ‘luxo’ de ter este banal meio de locomoção própria e que eu pago em prestações com juros elevados ao banco ganancioso
            ainda não dei à ignição para incendiar a gasolina cujo preço inclui um elevado imposto para o Estado
            e já estou a olhar para os selos do imposto automóvel um que o Estado chulo lança todos os anos para se poder circular nas estradas esburacadas e plenas de armadilhas mortais que o mesmo Estado ‘Robin dos Bosques ao contrário’ rouba aos pobres para dar aos ricos não conserva nem indemniza quem nelas cai outro que a autarquia me obriga a pagar com o nome de taxa social para me deixar estacionar em frente à casa que vou pagando a prestações
            meto-me em bichas desmedidas onde circulam a passo de caracol outros iguais a mim no meio de engarrafamentos provocados pela escassez de vias de comunicação apesar do pagamento de portagem para as utilizar e cuja grande parte do valor é entregue como não podia deixar de ser ao Estado do meu descontentamento
            antes de estacionar e cujo espaço ocupado pelo meu transporte vou ter de pagar ao Estado esmifrador atravessei um rio sobre uma ponte mais do que amortizada há não sei quantos anos mas cuja portagem o Estado vampiro não só insiste que eu continue a pagar indefinidamente como também aumenta o seu valor de acordo com a inflação prevista que nunca é como se imagina mas pelo contrário é sempre mais elevada do que os cálculos feitos pelas doutas cabeças que nos (des)governam roubam e exploram
            finalmente cheguei ao trabalho cujo execrável ordenado não revelo a ninguém não com o fito de fugir a mais impostos pois não o posso dizer porque sou empregado do miserável Estado sanguessuga mas para que não façam chacota com o ridículo do meu $alário
            ainda bem que nunca te habituaste a beber café e a fumar pois os preços destes devaneios são aumentados todos os anos também acima da vesga inflação prevista diz a minha mulher enquanto folheia um jornal que também aumentou desmesuradamente e que eu por ter a terrível e fatal mania de ler me atrevo a comprar nos chamados dias de festa para além da revista pouco interessante que compro mensalmente para ajudar os sem abrigo a terem uma vida com preocupações e impostos como a que levo
            como bom cidadão passo o dia na minha repartição a pôr em dia o trabalho que me é destinado pelo chefe que me avalia de acordo com regulamentos traiçoeiros impostos sem escrúpulos e como saio às 16 horas faço das tripas almoço e não como nada até essa hora porque a vida está cara e o aumento do subsídio de almoço foi de apenas 12 cêntimos o que me deixa 38 cêntimos atrás da minha empregada vulgo mulher-a-dias que como aritmeticamente já se percebeu teve um aumento de 50 cêntimos
            logo que entro no carro para regressar a casa satisfaço-me com duas carcaças com manteiga que a minha mulher me arranjou de véspera até porque o pão o alimento já não dos pobres mas sim dos remediados teve um aumento de 30% o que em metal sonante é muito superior aos 12 cêntimos que acharam por bem aumentar-me de onde se pode concluir mesmo sem ser economista que nem sequer tive um aumento de fome mas que a minha vontade e necessidade de comer aumentou mais do que os meios que passei a auferir para a satisfazer
            fiquei de passar no infantário para ir buscar o mais velho mas tenho de me apressar a fazê-lo pois é raro o dia que não apanho uma multa por mau estacionamento uma vez que a autarquia o Estado sangrador ou seja lá quem for que deixou construir aqui este estabelecimento de ensino não pensou antecipadamente que não existiam locais para parar a viatura e como silos ou parques de estacionamento é coisa que o Poder não faz então ao mais pequeno descuido estamos sujeitos a que nos autuem e nos reboquem o carro se nos demorarmos demais o que agrava a coima a pagar ao Estado extorquidor
            a miúda vai a minha mulher buscá-la a casa da avó que feitas as contas ao pormenor e mesmo contando com o excessivo aumento do passe dos transportes públicos ainda é o que podemos suportar melhor
            dou um pulo ao supermercado para comprar qualquer coisa para o jantar e não para constatar o irremediável aumento de todos os produtos essenciais facto pelo qual vai para dois anos os mesmos em que não tive aumentos dignos me tornei vegetariano abdicando de qualquer tipo de peixe e de carne porém com o aumento de miséria que tive foi-me necessário abdicar dos produtos biológicos pelo que fiquei entregue não à bicharada como é como é usual dizer mas pelo contrário aos pesticidas cancerígenos utilizados para a dizimar que ao mesmo tempo nos exterminam silenciosamente num hospital sem as mínimas condições de dignidade e de humanidade apesar da chusma de impostos que pago ao dono desse estabelecimento insalubre de saúde que é o Estado gatuno
            finalmente chego à minha casa posso afirmá-lo com propriedade e como propriedade embora a esteja a pagar a juros de ouro ao banco sugador
            tive que comprar este andar com mais uma assoalhada para fazer um quarto para a miúda o que me tem custado os olhos da cara e por isso a permilagem do pagamento do condomínio aumentou significativamente tornando-se em mais uma elevada prestação a que tenho de chegar à qual junto a contribuição autárquica e o imposto de conservação de esgotos e chego à triste conclusão que apesar de ter casa própria tenho uma renda mensal que é semelhante à que pagaria se vivesse numa casa alugada mas que tem o Estado todo poderoso que ver com isso quem quer bolota que trepe desde quando é que uma habitação condigna é preocupação fundamental do Poder apesar de isso estar consignado na Constituição a teoria nunca teve nada que ver com a prática
            dou banho de imersão aos miúdos o de chuveiro acabou-se desde o último aumento da água e do gás enquanto a minha mulher cozinha o possível para eles
            eu e ela já estamos habituados a comer pouco à noite a frugalidade só nos faz é bem mantém-nos  magros embora o melhor termo reconheço-o seja escanzelados livra-nos do colesterol e sobretudo de constões quando fazemos amor obrigando-nos a apagar a luz e a poupar a electricidade que subiu tão estupidamente
            por outro lado a inacção a que já me habituei deu-me uma maravilhosa possibilidade de sonhar que conscientemente não sei se o faço acordado se a dormir o que sei é que o sonho é sempre o mesmo
            pergunto-me o que fazer para fugir a esta fatalidade de ter nascido em Portugal e não encontro solução
            quando vivia em ditadura bastava pedir asilo político a uma das centenárias democracias europeias para desfrutar de liberdade de pensamento e de condições económicas
            depois da frustrada revolução do 25 de abril nos seus ideais mais profundos e antes da queda do muro de berlim ainda se tornava possível pedir asilo político a um dos países do bloco que se auto-proclamava socialista embora as condições de liberdade de que iria desfrutar não fossem tão amplas como as da primeira hipótese
            mas agora que tudo é comunidade europeia e estados unidos da América o que me resta
            cuba e o último estertor do pensamento único não obrigado senhor fidel fique-se lá com os havanos e com as suas ideias de ideais foscos ou o fanatismo religioso do mundo árabe regressão histórica à barbárie inquisitorial já superada pelos meus genes ocidentais
            continuar a assistir à podridão e aos desmandos dos políticos de duas visões
            vesgos para me obrigarem a pagar a peso de ouro extorquindo-me até ao derradeiro cêntimo uma crise económica mundial de que eu sou o elo mais fraco
            de olhão quando se trata de contemplar as suas chorudas autobenesses e negociatas sem escrúpulos com o fito de enriquecerem desmesurada e instantaneamente atropelando tudo e todos até mesmo as repressivas leis que legislam para mim
            já não acredito em nada nem em ninguém daí que tenha suspendido o voto a derradeira arma que me restava não a entregando a nenhum partido político qualquer que ele seja e o que defende pois os homens são tão vulgar e mesquinhamente iguais
            a única coisa que ainda me prende a este país é a sua literatura e alguns dos seus autores
            e continuo a interrogar-me
            que fazer para deixar de ser português?
 
                                                                                      JOSÉ LANÇA-COELHO
publicado por cempalavras às 23:41
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