Quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009

HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA

 

DA MEMÓRIA…JOSÉ LANÇA-COELHO
 
1969 – NO FUNERAL DE ALVES REDOL
 
            A 29 de Novembro de 1969 faleceu um dos grandes nomes do neo-realismo português, o escritor Alves Redol.
            Posso dizer que, desde que comecei a ler, conhecia este nome, pois havia um livro na biblioteca cá de casa, cuja capa, por ser diferente das habituais, me atraía – ao contrário das capas de papel ou cartonadas, este tinha uma capa em relevo, às cores e parecia feito de um tecido turco. Na alta lombada podia ler-se Gaibéus, Maréus e Avieiros. Tratava-se de uma trilogia de Alves Redol, onde se reuniam três livros da grande obra do escritor de Vila Franca de Xira.
            Redol iniciou a sua actividade literária no jornal Vida Ribatejana. Vindo para Lisboa começou a frequentar os círculos literários próximos do PCP que, seguiam o romance brasileiro de intenção social – daí que os seus Avieiros estejam muito próximos do livro Cacau de Jorge Amado -, os escritores rebeldes norte-americanos John Steinbeck e Erskine Caldwell, e, o realismo soviético de um Máximo Gorki.
            O acompanhamento da brutal Guerra Civil de Espanha com todos os seus dramas levou Redol a colaborar em revistas de esquerda como O Diabo. Será o director desta revista, o conceituado professor Rodrigues Lapa, que aconselhará Redol, em 1938, a escrever o seu primeiro livro, Glória – Uma Aldeia do Ribatejo, que se pode considerar um ensaio etnográfico.
            Em 1939, surge o primeiro romance de Redol, o já citado Gaibéus, que despertava a minha curiosidade infantil, e que marcará o apogeu do neo-realismo na literatura portuguesa, onde a personagem principal deixava de ser um indivíduo e passava a ser um grupo de trabalhadores rurais, constituído pelos “ratinhos” que, na época da ceifa dos cereais, deixavam a sua Beira e vinham trabalhar nos grandes latifúndios do Ribatejo e do Alentejo.
            Após este romance de intenção marcadamente social seguem-se outros do mesmo teor como, Avieiros (1942), Horizonte Cerrado, Vindima de Sangue, todos eles escritos entre os anos 40 e 50, época em que surgem as primeiras cisões no movimento neo-realista, nomeadamente ao nível da poesia.
            Em 1953, saíram dois livros, Uma Abelha na Chuva de Carlos de Oliveira, e, A Sibila de Agustina Bessa-Luis, que vêm dar uma pedrada no charco. Assim, o primeiro, dá mais importância à forma e aos símbolos dos temas, embora ainda comprometido com o neo-realismo, enquanto o segundo, rompe com todas as linhas de força do movimento literário que vimos focando.
            Redol responde a este desvio com A Barca dos Sete Lemes (1958), onde introduz temas existencialistas, como a morte e a culpa, Barranco de Cegos (1962), que sobrevaloriza como personagem principal a classe dominante, e, O Muro Branco (1966), onde a linha narrativa se serve do modernismo consubstanciado com o diário intimista.
            Pelo que até aqui foi escrito, percebe-se que Alves Redol era um dos muitos antifascistas a quem a ditadura perseguia. Aliás, foi isso que constatei, quando, na companhia do meu avô, fui ao seu funeral.
            Na verdade, fomos a Vila Franca de Xira, no último dia de Novembro de 1969, pois sabíamos que o funeral do escritor, seria uma jornada de luta contra o regime salazarista. Quando chegámos à estação de caminho-de-ferro, vimos polícias, GNR com cães e agentes da PIDE à paisana, por todo o lado, que nos escoltaram durante o cortejo fúnebre. Mesmo assim, milhares de vozes não se inibiram de gritar: “Abaixo a Pide; Abaixo o Fascismo; Amnistia; Liberdade!”.
publicado por cempalavras às 22:43
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