Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA

 

DA MEMÓRIA…JOSÉ LANÇA-COELHO
 
“O FISICO PRODIGIOSO” E QUANDO O INTELECTO NÃO SUPERA O FÍSICO
 
            A novela, O Físico Prodigioso, que foi publicada pela 1ª vez em 1966, em Novas Andanças do Demónio, lê-se de um fôlego e, logo desde o início se percebe que se trata de um texto de iniciação no erotismo. Refere-se que, a única pessoa que poderá salvar a castelã, é um fidalgo, filho de rei, que possua três características, ser mui formoso, grande físico, e virgem, e em cujo sangue a mulher se deverá banhar. No que refere ao erotismo, são muitos os exemplos que poderíamos apresentar, porém, note-se, por exemplo, a utilização da lança como símbolo fálico.
            É também de salientar a utilização na estrutura da narrativa de dois textos paralelos, semelhantes na problemática abordada, mas com elementos e finais completamente diferenciados.
            Por outro lado, é de referir o mérito do autor em construir uma narrativa extremamente diferenciada da fonte que lhe serviu de ponto de partida para a escrita do texto em análise, o que põe em destaque a sua fértil imaginação ao serviço de um texto que se quer valorizar, atribuindo-lhe novos elementos narrativos.
            A utilização do barrete, que torna o personagem invisível, é, também, um recurso ou categoria narrativa extremamente importante, pelo que permite fazer ao tempo da acção, avançando ou recuando, e anulando definitivamente todos os acontecimentos ocorridos anteriormente.
            No final do texto o autor faz um contundente ataque, através da poesia, a todas as estruturas sociais. Assim, partindo daquilo a que se convencionou chamar, a simbologia do Trono (“Morra o rei e morra o conde,”), pp.136-7, e do Altar (“Morra o bispo e morra o papa,”), ataca o rei, a nobreza e o clero, porém, não se detém neste ponto, atacando os detentores do dinheiro, a Burguesia comercial e os usurários, aqueles que emprestam dinheiro a juro (“morra quem compra e quem vende, / maila toda a usurária./”). Na linguagem utilizada no poema, só o povo tem o respeito do autor (“Morra tudo, minha gente, / vivam povo e rebeldia. /”) .
            Em termos sintéticos, isto é o que se pode dizer de O Físico Prodigioso de Jorge de Sena. Porém, deste autor, há um facto na sua biografia (2-11-1919 / 4-6-1978) que é desconhecido ou pouco explicável, trata-se da sua expulsão da marinha de guerra.
            Sena era filho de um 1º oficial da marinha mercante, que durante quarenta anos trabalhou na Companhia Colonial de Navegação, onde comandou diversos navios, até que, em 1934, um acidente, lhe roubou uma perna, afastando-o do serviço.
            Sena sempre nutriu grande afeição pelo mar, não só pela influência que o pai desempenhou nele, como também pela sua proximidade teórica (com 10 anos leu A Volta ao Mundo em Oitenta Dias, e, no ano seguinte, A Ilha Misteriosa, ambos da autoria de Júlio Verne, oferecidos, respectivamente, pela avó e pela mãe) e prática com o mar, (passava as férias grandes com um tio em Oeiras, e com outros familiares na Figueira da Foz. Este amor levou-o a, depois de terminar o curso do liceu, com média de18 valores, assim distribuídos, 19 em Álgebra Superior-Geometria Analítica, 17 em Química Geral e, 18 em Física Geral, a fazer o exame de aptidão à Faculdade de Ciências e a inscrever-se nos preparatórios para a Escola Naval. Entrou nesta instituição em 1937, depois de ter passado nas provas de aptidão física, onde sobressaem um passeio de 4 metros efectuado numa viga colocada a 4 metros do chão, uma subida de um cabo vertical, também de 4 metros, saltos e provas de natação.
            Assim, a 1 de Outubro de 1937 saía do cais de Alcântara, o navio-escola ‘Sagres’, com mais de 200 homens, entre os quais se incluíam 18 cadetes, 14 da Marinha e 4 da Administração Naval, que faziam a sua viagem de instrução marítima, que à época era de 5 meses e se fazia logo após a entrada na Escola Naval. Devido às suas notas académicas, Sena era o primeiro cadete do seu curso, porém, a dura e difícil vida a bordo, com provas perigosas, castigos e dificuldades de comunicação e inserção no grupo, levou-o a claudicar. Ao fim de 4 meses, depois dos cadetes terem que nadar num mar cheio de tubarões, o 1º tenente-instrutor informou Sena e outros 3 camaradas que iria propor a sua exclusão da Marinha, o que se consumou por portaria de 14 de Março de 1938, embora as razões de tal atitude nunca fossem compreendidas por Sena, tanto mais que constavam de relatórios confidenciais.
            Testemunhos dos muitos que com Sena privaram, apontam a sua falta de destreza e os seus muitos medos, como por exemplo, que nunca conseguiu subir aos mastros mais do que 6 ou 7 metros, sem as suas pernas começarem a tremer como varas verdes. Deste modo, nada valeu ao cadete Jorge de Sena ser admitido na Escola Naval com a melhor média do seu curso, uma vez que o parágrafo único do art.º 5 dizia que a formação “militar e física” dos cadetes seria considerada “em plano não inferior à formação científica e técnica”.
publicado por cempalavras às 22:39
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