Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

MARQUÊS DE POMBAL

 

DA MEMÓRIA…JOSÉ LANÇA-COELHO
 
O MARQUÊS DE POMBAL E OEIRAS NO ‘DIÁRIO’ DE TORGA
 
            Percorrendo atentamente os dezasseis volumes do Diário de Miguel Torga ou as mil e setecentas páginas que lhe correspondem, encontramos apenas uma referência ao Marquês de Pombal e outra a um local do concelho de Oeiras.
            Na panóplia de nomes que podemos encontrar nesta obra monumental de cultura geral, - reveladora dos interesses do poeta de S. Martinho de Anta perante o mundo e o seu tempo -, de escritores a filósofos, de pintores a políticos, de santos a tiranos, de locais a livros, de actores a historiadores, apenas uma vez, o Poeta cita o Marquês de Pombal.
            A alusão a Carvalho e Melo surge no Diário IV, (1) escrita em Ucanha, a 6 de Outubro de 1946, a propósito da simbiose telúrica que Miguel Torga pressente entre os espaços e os homens que dele brotaram.
            A citada Ucanha é o local de nascimento do célebre erudito José Leite de Vasconcelos e, a propósito da terra e do homem, o autor de A Criação do Mundo escreve:
 
            “ Eis uma terra de acordo com o filho que deu! Esta ponte, esta torre, esta igreja e estas ruas estavam a pedir José Leite de Vasconcelos. Às vezes, dão-se na natureza destes acasos felizes. Nasce sobre a montanha o seu roble.”
 
            Após realçar esta ‘fraternidade’ entre terra e Ser, Miguel Torga marcará a antítese da mesma, comparando negativamente Pombal com a personalidade que usava o seu título de Marquês, como se pode constatar na seguinte passagem:
 
            “ Fez-me sempre impressão ver a estátua do Marquês de Pombal na vila do mesmo nome.”
 
Abordando, de novo, de modo positivo, a matriz que vem defendendo, Miguel Torga marca a união entre o conde de Oeiras e Lisboa, do seguinte modo:
 
“ Aquela cabeleira a emoldurar uma vontade de aço só realmente em Lisboa, num cenário de arquitectura fria e calculada.”
 
Relativamente a Oeiras, e apesar de citar sete vezes o poeta de Linda-a Pastora, Cesário Verde, apenas uma vez aborda o património histórico-cultural do concelho, referindo-se a um dos ex-libris do mesmo, isto é, a magnífica Torre do Bugio.
Na verdade, no Diário XIV (2), no dia 12 de Julho de 1983, o autor de Os Novos Contos da Montanha, andarilho das terras de Portugal, escreve o seguinte:
 
“ Ninguém queira saber como aqui vim parar, nem como vou daqui sair, com o mar enfurecido à volta. Digo apenas que me faltava no caleidoscópio da pátria este vidrilho mágico que lhe acrescenta uma significação particular.”
 
Para de seguida, marcar uma diferença fundamental entre dois espaços abissais do solo português – o castelo de Almourol e a torre do Bugio:
 
“ Portugal tem dois miradouros flutuantes: o castelo de Almourol e o baluarte onde me encontro [Torre do Bugio]. De um, o que há nele de telúrico entra pelos sentidos todos; no outro, o que há nele de marítimo entra pelo entendimento todo.”
 
Se analisarmos esta última frase de um ponto de vista filosófico, podemos notar que o Poeta de S. Martinho de Anta, contrapõe as matrizes dos sentidos e da razão, ao mesmo tempo que as atribui aos dois espaços comparados, isto é, enquanto no castelo de Almourol o que respeita à terra é abrangido pelos sentidos, na torre do Bugio o relativo ao marítimo é abrangido pela razão.
 
.
 
 
Notas:
(1) TORGA, Miguel, Diário IV, 3ª edição, Coimbra, 1973, p. 16.
(2)      “              “    , Diário XIV, 2º v. da ed. integral, Coimbra, 1995, p. 1389.
publicado por cempalavras às 22:49
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