Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

FERNANDO PESSOA & HETERÓNIMOS

 

 DA MEMÓRIA…JOSÉ LANÇA-COELHO
 
O MEU PERCURSO PESSOANO
 
            Até ver, Fernando Pessoa (1888-1935) é o maior vulto literário que conheci. Claro que, em Arte, tudo é subjectivo, uma vez que tudo depende do modo como o sujeito se posiciona perante o objecto, daí que, o que acabo de afirmar acerca de Pessoa, seja esteticamente discutível.
 Vejamos agora como se processou o meu percurso pela literatura pessoana. No 5º ano (9º de escolaridade) conheci O Mostrengo, poema incluído na selecta literária. No ano seguinte, 1966, o meu professor de Português, o escritor e jornalista Marques Matias, de quem possuo uma biografia de D. Dinis (1261-1325), falou de Pessoa na aula, afirmando, como se tratasse de um crime de lesa-pátria, que este poeta era comparável com o institucionalizado, de que o Estado Novo se apropriara, Camões (1525-1579). Pouco depois, li o primeiro livro de Pessoa existente cá em casa, A Mensagem, onde estava o poema acima citado.
Comecei, então, a ouvir falar mais de Pessoa, e o livro que li depois foi a Poesia de Alberto Caeiro (1885-1915). Aprendi com este heterónimo como o contemplar e o não pensar era importante.
Anos depois, um dos muitos livros que levei para férias foi a Poesia de Álvaro de Campos (1890-1935). Como se costuma dizer, o livro encheu-me as medidas. Lembra-me de deambular à beira-mar com o livro na mão e não haver um único poema de que não gostasse.
Nos anos 80, com o surgimento do JL, Pessoa começou a ser um tema habitual tanto aí, como nas páginas literárias dos diários lisboetas. Surgiram, então, novos heterónimos, de que nunca ouvira falar (Vicente Guedes, António Mora, etc., etc.).
Por esta altura, e depois de ler, A Very Original Dinner e O Banqueiro Anarquista, enveredei pela literatura policiária como autor, assinando com o pseudónimo de Joe Lance a minha produção literária. Foi neste momento que li toda a obra policial de Pessoa (ele considerava a literatura policial a única coisa racional que restava à humanidade, ao lado de um cigarro e de uma chávena de café) e conheci o heterónimo Abílio Quaresma, um inspector decalcado em Dupin inventado pelo autor americano Edgar Allen Põe (1809-1849), embora os autores policiais que Pessoa mais apreciava, fossem Arthur Morrisson (1823-1900) e Conan Doyle (1859-1930).
Com a ajuda de José Saramago e do seu romance O Ano da Morte de Ricardo Reis, conheci as Odes do heterónimo Ricardo Reis (1887-1935).
Entretanto, li no Diário de Miguel Torga (1907-1995), no dia relativo ao da morte de Pessoa, as carinhosas palavras que o poeta de S. Martinho de Anta lhe dedicou, escrevendo que, morreu um dos maiores poetas do país e a maioria dos portugueses ignora-o.
Foi, então, que li O Livro do Desassossego assinado pelo heterónimo Bernardo Soares. Também o livro de Mário Cláudio, Boa Noite Senhor Soares, falando das ruas de Lisboa, em cujos escritórios Fernando Pessoa trabalhou como correspondente comercial, e das hortas, onde a população lisboeta fazia piqueniques ao fim de semana.
Pela mão da investigadora Teresa Rita Lopes conheci uma multidão de heterónimos de Pessoa que jaziam no célebre baú, e dos quais cito Eduardo Lança (1875-1935) – que por ter um dos meus apelidos, digo amiudadamente e por brincadeira, ser meu primo! – jornalista brasileiro que veio tentar a sorte a Portugal, onde acabou por ficar, tornando-se poeta e prosador.
Ouçamos as palavras de Pessoa, que o apresenta através de um outro heterónimo, Luís António Congo, era inevitável!, ao mesmo tempo que chamamos a atenção para a profícua imaginação do grande poeta: “Nasceu em 15 de Setembro de 1875 na Baía, onde seguiu os diversos estudos necessários para a carreira comercial. Acabava o curso quando ficou órfão, empregando-se logo aí numa importante casa comercial. Em negócio da mesma casa veio a Lisboa onde permaneceu desde a sua chegada. Tem, contudo, viajado por Portugal e o seu livro (publicado em 1894) foi as «Impressões de um viajante em Portugal» livro maravilhosamente escrito e num estilo belo e verdadeiramente português. Mas a poesia é o seu forte e disso publicou em Lisboa em 1895 um livro de lindíssimos versos - «Folhas outonais» - na mesma cidade em 1897 um outro livro de versos - «Coração enamorado» - e em 1900 o seu melhor livro de poesias - «Os meus mitos».
Consta-se que brevemente publicará um outro livro.
Tem colaborado em diversos jornais do Brasil e de cá, mas é nos perfeitamente impossível dar os nomes exactos, tantos são eles e de tal forma estão espalhados.»
Como acabamos de constatar, o desdobramento do Eu pessoano em tantas personalidades, justifica magnificamente um dos epítetos com que se caracteriza a obra do Poeta, ao designá-la por, “drama em gente”.
publicado por cempalavras às 23:09
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