Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

DARWIN

 

DA MEMÓRIA … JOSÉ LANÇA-COELHO
 
 2º CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE DARWIN E 150 ANOS DA PUBLICAÇÃO DE A ORIGEM DAS ESPÉCIES
 
            “E ainda há sábios que acreditam que o homem descende do macaco!...Nós somos todos filhos de Nosso Senhor Jesus Cristo!...”
Foi com esta frase que um padre de nome Rogério, contratado apenas para a época da Páscoa, pregando um sermão da Quaresma na igreja açoriana de Ponta Delgada, terá tentado contradizer Darwin (nasceu a 12 de Fevereiro de 1809) e a sua teoria da Evolução das Espécies (publicou em 1859 A Origem das Espécies), depois de uma longa viagem (entre 27 de Dezembro de 1831 e 2 de Outubro de 1936) efectuada no navio ‘Beagle’, que tinha como missão cartografar o globo terrestre para a marinha inglesa, e onde o naturalista recolheu fósseis e exemplares de animais e vegetais, para além de explorar zonas desconhecidas e contactar com as populações indígenas.
            O que o padre Rogério desconhecia, tal como a grande maioria dos açorianos, é que na ilha de S. Miguel, vivia Francisco Arruda Furtado (1854-1887), um autodidacta que se interessava por Ciência e se correspondia com Darwin, para além de outros cientistas, nas línguas de Shakespeare e de Voltaire.
            Na verdade, escreveu seis cartas a Charles Darwin, tendo recebido resposta do famoso cientista inglês às quatro primeiras. Sabe-se até que Darwin o alertou para o facto de, Arruda vivendo numa ilha onde forçosamente existiam faróis, haveria também muitas mortes de pássaros contra os vidros das cúpulas desses avisadores da navegação, sendo por isso necessário inspeccionar os fragmentos de terra existentes nas patas e nos bicos desses animais, e enterrar esses mesmos fragmentos em terra preparada para cultivo, que depois seria tapada, com a incumbência de ver se da primeira terra germinariam quaisquer plantas, pois assim não só se poderia determinar a origem das aves, como também a evolução das espécies.
            Arruda terá escrito um opúsculo, publicado por certo em edição de autor, em Ponta Delgada no ano de 1881, e intitulado O Homem e o Macaco, que serviu de contestação à anticiência do reaccionário padre Rogério.
            Aqui, Arruda Furtado escreve: “ A semelhança do macaco com o homem, é um facto que o povo mais do que ninguém se diverte a mostrar. Ide para uma aldeia com um desses homens de realejo e mandril e ouvireis em todas as bocas: «Parece mesmo ser gente». Essa semelhança, reconhecida pelo próprio povo, impressionou mais de perto os homens de Ciência, e eles disseram, não que o homem e o macaco de hoje eram descendentes um do outro, mas somente que ambos deveriam ter sido produzidos pela transformação de um animal perdido e mais caracterizado como macaco do que como homem.”
            Furtado era um verdadeiro autodidacta no amplo sentido da palavra, e deste modo, recorrendo-se de outras ciências como a Paleontologia – “existe uma série imensa e graduada de macacos fósseis muito mais parecidos com o homem fóssil e com o selvagem actual, do que estes o são com o homem actual civilizado” – e a Embriologia – “a vida do embrião humano começa pela forma por onde igualmente começam, o cão, a galinha e a tartaruga, animais por certo muito mais diferentes dele do que o Gorila ou o Chimpazé”, chega à conclusão que, “se o homem devesse ter orgulho (…) nada havia mais glorioso do que ter vindo da funda eternidade por uma série de transformações, (…) apenas à custa do seu trabalho, (…) à custa da maior soma de lutas pela existência que tem podido sustentar uma espécie.”
            A terminar o opúsculo, Arruda reafirma o darwinismo – “E é por isso que, tendo podido dizer esse pouco que aí fica, nós julgamos ter cumprido um duplo dever – dar oportunamente um efeito salutar à insistência oca, com que se meteu nos sermões uma questão dessa natureza”, ao mesmo tempo que, dá uma forte alfinetada no dogmatismo da igreja católica servindo-se do padre Rogério, “dizer aos críticos do porvir que houve uma missão rogeriana, que nem toda a sociedade micaelense deste século aceitou, como o poderia ter feito o povo da China ou do Japão.”
            Já que falámos na igreja católica, citemos o pedido de perdão que a sua congénere, a igreja anglicana, apresentou a Darwin por o ter tratado mal, assumindo que reagiu de forma defensiva e emocional quando o cientista afirmou que o Homem descendia do macaco.
            Este pedido de desculpa surge numa altura em que outros sectores religiosos defendem que o Criacionismo – a teoria filosófica que se opõe ao Darwinismo e que, apoiando-se na Bíblia, preconiza que o mundo foi criado por Deus em sete dias – deve também ser ensinado na escola, ao lado do Evolucionismo.
            Para bem da Ciência, longe vão os tempos em que os representantes da igreja anglicana se davam ao luxo de dizer piadas como a seguinte: num debate realizado na carismática universidade inglesa de Oxford, em 1860, um bispo perguntou se era por causa dos avós que os darwinistas diziam que se descendia do macaco?
publicado por cempalavras às 23:14
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