Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

DE A A Z

 

ENCICLOPÉDIA PESSOAL
 
JOSÉ LANÇA-COELHO
 
PROUST, Marcel – O homem de Em Busca do Tempo Perdido de que apenas li Um Amor de Schwann. Descubro agora que, era homossexual. Filho único de uma família aristocrática, sempre doente, foi muito protegido pela mãe. Segundo o que li em Babelia, suplemento literário do El Pais, Proust teve uma enorme quantidade de amantes, na ordem das dezenas, quase todos empregados (de baixa qualidade, como paquetes, camareiros) dos hotéis onde permaneceu durante longas temporadas.
Proust não conseguiu publicar o primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido na Gallimard, porque o director desta editora na altura, André Gide, não acreditou na qualidade da obra.
 
DOYLE, Arthur Conan – O autor de Sherlock Holmes, o detective frio e racional, era dado ao Espiritismo, e isso não sucedeu após a morte do filho na Iª Guerra Mundial, como durante muito tempo se julgou, mas é muito anterior, pois na sua biblioteca, antes do primeiro conflito bélico da Humanidade, existiam já mais de setenta livros sobre Espiritismo. Com quarenta e tal anos, viúvo e já sem grandes objectivos, surgiu-lhe um caso real, como tantas vezes os seus leitores lhe pediam, que Conan Doyle agarrou com as duas mãos. Tratava-se de George  Edalji, solicitador, pequeno, solitário, meio-indiano e habituado ao racismo. Fora vítima de inúmeros ataques, que a polícia lhe atribuía. Edalji escreveu a Doyle, após ter sido condenado em tribunal. O escritor empenhou-se de tal modo que, conseguiu a criação do tribunal de recurso criminal, porém, ao contrário do que sucedeu em França com Dreyfus, Edalji nunca teve o estatuto de herói, apesar de Doyle, conseguir provar a sua inocência.
 
FICHTE – Este filósofo começou por ser um simplório pobre e analfabeto pastor de gansos em Rammenau, pequena aldeia alemã cuja única fama eram os inspirados sermões do padre, aos domingos. Um dia, um barão foi a essa aldeia para ouvir o sermão, mas chegou tarde. Foi então informado por um aldeão, que o moço que pastava gansos, o jovem Johann Fichte, lhe poderia repetir todo o sermão. Depois de Fichte lhe repetir tudo, o barão ficou tão impressionado com a memória do rapaz, que lhe pagou os estudos em Pforta, famoso colégio interno, por onde passaram filósofos como Nietzche. Seguiu-se a universidade, mas quando o barão morreu, teve de aceitar o emprego de tutor numa residência, onde dava lições sobre a filosofia de Kant, que desconhecia, a um jovem. Em breve, se encantou pela obra de Kant. Mais tarde, recebeu um convite para ser tutor em Varsóvia, para onde se deslocou a pé, pois não tinha dinheiro. No caminho, passou por Konigsberg, a cidade natal de Kant para o conhecer. Mas este não o recebeu. Fichte escreveu, então, o Ensaio de uma Crítica a toda a Revelação, utilizando a visão kantiana sobre a ética e o dever, conforme interpretados pela religião. Este texto impressionou tanto Kant, que, não só o recebeu, como incentivou a publicação do mesmo. Quando a Critica foi publicada, saiu anónima, levando os leitores a pensarem que era da autoria de Kant, dado o brilhantismo do texto. Kant informou publicamente que o autor do texto era Fichte, que foi convidado para dar aulas de filosofia na Universidade de Iena.
 
SCHOPENHAUER, Arthur (1788-1860) – Em 1820, aos trinta e dois anos, recebeu o primeiro convite para assumir um cargo temporário e muito mal remunerado para dar aulas de Filosofia na Universidade de Berlim. De imediato, marcou a sua cadeira, intitulada A Essência do Mundo, para a mesma hora da cadeira dada por Hegel, chefe de departamento e o mais famoso filósofo da época. Assim, enquanto 200 alunos se acotovelavam para ouvir Hegel, apenas cinco ouviram Schopenhauer definir-se como um vingador que veio libertar a filosofia pós-kantiana dos paradoxos vazios e linguagem obscura e deturpada da filosofia contemporânea. Os seus alvos eram Hegel e Fichte. No semestre seguinte, não teve um único aluno, nunca mais dando aulas.
         Nos trinta anos que viveu em Frankfurt, até morrer em 1860, levou uma vida tão rígida como a de Kant, começando por escrever três horas, a que se seguia uma hora a tocar flauta. Mesmo a meio do Inverno, raro era o dia em que não nadava no frio rio Meno. Almoçava sempre no mesmo clube, o ‘English Hof’, de casaca e peitilho engomado branco, traje que era a alta moda da sua juventude, mas estava completamente ultrapassado em Frankfurt, em meados do século XIX. Pagava dois almoços para garantir que ninguém se sentava na mesma mesa. Tinha a mania de discutir assuntos impróprios e chocantes como, por exemplo, elogiar a nova descoberta científica que impedia que adquirisse uma infecção venérea bastando, após o coito, mergulhar o pénis numa solução de cloreto. Costumava levar para junto da mesa onde almoçava, o seu poodle Atman, que tratava por Sir, chamando-lhe Humano, quando o cão se portava mal.
         Num jantar, um jovem perguntou qualquer coisa ao filósofo, a que ele respondeu “Não sei”. Como o jovem comentou: “Pensei, que o senhor, um sábio, soubesse tudo”. O filósofo respondeu: “Não, o conhecimento é limitado, só a estupidez é ilimitada.
         Qualquer pergunta sobre mulheres ou casamento tinha sempre uma resposta azeda. Assim, uma vez teve de aguentar a companhia de uma mulher muito faladora, que lhe contou detalhes de como sofria com o casamento. Ouviu-a pacientemente e quando a mulher lhe perguntou se compreendia, respondeu:
“- Não, mas compreendo o seu marido.” Noutra conversa, perguntaram-lhe se pensava casar-se, tendo respondido: “Não, pois só me traria aborrecimentos, porque teria ciúmes por a minha mulher me trair, pois eu ia merecê-lo por me ter casado.
         Segundo ele, os médicos usam duas letras diferentes, uma quase ilegível, nas receitas, e outra, clara e bonita, nas contas.
         “Só como celibatário se pode assumir o risco de viver sem trabalho e com poucos rendimentos.”
         A sua maior raiva, era contra os dois filósofos consagrados do s.XIX, Fichte e Hegel. Num livro, vinte anos depois da morte de Hegel, refere-se a ele como sofista e “um banal, oco, asqueroso, repulsivo e ignorante charlatão, que cometeu a inigualável afronta de escrever um conjunto de disparates pegados, que foi aclamado pelos seus seguidores mercenários no exterior como sendo uma sabedoria eterna”.
         Procurou na filosofia hindu o refúgio para o sofrimento pessoal.
         Escreveu ensaios pungentes e aforismos ácidos, sendo um dos poucos filósofos que Wittgenstein lia e admirava.
         Os temas principais do seu sistema são: volição, resignação e pessimismo; sendo o seu conceito, a vontade está acima do espaço e do tempo, mas seguir os seus ditames é o caminho mais rápido para a miséria. A sua obra principal é O Mundo como Vontade e Representação.
 
WOOLSTONECRAFT, Mary (1759-1797) – É uma feminista que escreveu a favor do igualitarismo dos sexos. Correspondeu-se com o filósofo inglês, conservador e anti Revolução Francesa, Edmund Burk. É a mãe de Mary Shelley, a autora do famoso Frankenstein. Defendia que o funcionamento da sociedade não devia basear-se na diferenciação dos sexos. As suas obras principais são: Vindication of the Rights of Women, Vindication of the Rights of Men.
 
NIETZSCHE, Friedrich – Algumas máximas inseridas no livro Quando Nietzsche Chorou, da autoria de Irvin D. Yalom, onde este filósofo se relaciona com o médico vienense Joseph Breur que é amigo de Freud, e que o trata através da psicoterapia, - a mãe da psicanálise, que será desenvolvida por estes dois amigos -, a pedido da sua amante, a escritora, feminista e psicanalista russa Lou Salomé, que, ao mesmo tempo, tem um ‘affair’ com o escritor Paul Rée, e que mais tarde será amante do poeta Rainer Maria Rilke. Breuer deixa-se dominar por Nietzsche para conseguir que, o segundo, descubra o que tanto o apoquenta, concluindo ser a solidão.
 
         Algumas máximas de NIETZSCHE:
 
“A esperança é o pior dos males!”
“Deus está morto!”
“A verdade é um erro sem o qual não conseguimos viver!”
“Os inimigos da verdade não são as mentiras, mas as convicções!”
“A recompensa final dos mortos é não morrerem mais!”
“Os médicos não têm o direito de privar os homens da sua própria morte!” (p.85)
“Os pensamentos são as sombras dos nossos sentimentos: cada vez mais escuros, vazios e simples.”
“Hoje em dia, já ninguém morre devido a verdades fatais; existem antídotos em demasia.”
“De que serve um livro que não nos transporta para além de todos os livros?”
“Qual é o sinal da libertação? Não se envergonhar perante si próprio!”
“Assim como os ossos, carne, intestinos e vasos sanguíneos estão encerrados numa pele que torna a visão do homem suportável, também as agitações e paixões da alma estão envolvidas pela vaidade; esta é a pele da alma.” (p. 87)
“Quem procura a verdade deve submeter-se a uma análise psicológica pessoal; o termo é «dissecação moral».”
“Os erros, mesmo os dos maiores filósofos, foram causados pela ignorância das suas próprias motivações.”
“Quem quer conhecer a verdade, deve primeiro conhecer-se totalmente a si mesmo. E para o fazer deve afastar-se do seu contexto habitual, até mesmo do próprio século ou país, para então se examinar à distância.” (p. 96)
“Transforma-te em quem tu és?”
“Tudo o que não me mata, fortalece-me.”
“Falo em conquistar ou dominar uma doença, mas quanto a optar … estou em dúvida, talvez uma pessoa escolha de facto uma doença. Depende de quem é a pessoa. A psique não funciona como uma entidade única. Partes da nossa mente podem funcionar independentes das outras. Talvez «eu» e o meu corpo formemos uma conspiração nas costas da minha própria mente. A mente, fique a saber, adora passagens secretas e alçapões.” (p.107)
“O desejo sexual também é um desejo de domínio sobre todos os outros. O «amante» não é alguém que «ama»; pelo contrário, almeja a posse exclusiva da amada. O seu desejo é excluir o mundo inteiro de um certo bem precioso. É tão egoísta como o dragão que guarda o tesouro! Não ama o mundo; pelo contrário, é totalmente indiferente às outras criaturas vivas.” pp. 186-7)
“Há uma divisão básica no estilo dos homens: aqueles que pretendam a paz de espírito e a felicidade, têm que acreditar e abraçar a fé, enquanto aqueles que pretendam perseguir a verdade, devem renunciar à paz de espírito e devotar a sua vida à investigação. Eu sabia disso aos vinte e um anos, há meia vida. É tempo de o senhor o aprender: deve ser o seu ponto de partida básica. Deve escolher entre o conforto e a verdadeira investigação! Caso escolha a ciência, caso opte por ser libertado das cadeias sedativas do sobrenatural, caso, conforme alega, escolha evitar a fé e abraçar o ateísmo, então não poderá, ao mesmo tempo, ansiar pelos pequenos confortos do crente! Se matar Deus, terá também que deixar o abrigo do templo.” (pp.189-190)
 
 
LUCRÉCIO – “Onde a morte está, não estou eu. Onde estou, não está a morte.” Eis uma verdade com uma racionalidade suprema e irrefutável. Porém, quando estou verdadeiramente assustado, ela nunca funciona, nunca acalma os meus temores. Essa é a falha da filosofia. Ensinar filosofia e aplicá-la na vida real, são empreendimentos bastante diferentes. (p. 220, “Quando Nietzsche chorou”)
publicado por cempalavras às 23:54
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