Sábado, 30 de Janeiro de 2010

GANDHI

 

DA MEMÓRIA…JOSÉ LANÇA-COELHO
 
O ASSASSINATO DE GANDHI
 
         De seu nome completo Mohandas Karamchand Gandhi, nasceu em Porbandar, golfo de Omã, a 2 de Outubro de 1869, e faleceu a 30 de Janeiro de 1948, assassinado por um fanático hindu.
         Gandhi, pertencendo a uma família abastada, foi educado por um brâmane no culto da seita de Jai, que preconiza a independência indiana e tem por base os mandamentos do Ahimsã, isto é, a resistência passiva. Depois de frequentar várias escolas da sua terra natal, e ingressar aos dezassete anos na Universidade de Ahmedabah, tendo passado nesse momento por uma grave crise religiosa. Ele próprio confessou: “Pela minha revolta contra a idolatria hindu fui durante algum tempo um mísero ateu!”
No início do segundo ano da Universidade, decidiu partir para Inglaterra e começou a estudar Direito em Londres, entre 1888 e 1891. Regressou à Índia e passou a exercer as funções de advogado no Supremo Tribunal de Bombaim, porém, anos mais tarde, abandonou este cargo, que considerava imoral.
De seguida, viveu na África do Sul, onde lutou pela igualdade de direitos da minoria indiana, durante o período que se estende de 1893 ao ano do início da 1ª Grande Guerra, 1914.
         Em 1915, regressou à Índia, onde, durante o conflito que assolou o mundo, defendeu a colaboração com os Britânicos. Entendimento que terminou após a tragédia de Amritsar (13 de Abril de 1919), iniciando a sua actividade política que tinha como finalidade a expulsão dos Ingleses da Índia.
         Por inúmeras vezes, foi processado e preso, por proclamar abertamente a vontade de independência do povo indiano, nomeadamente, na conferência de mesa-redonda realizada em Londres, em Setembro de 1931.
         Retirou-se da política no período compreendido entre 1934 e 1939, para neste último ano, voltar e impor como presidente do Partido da Independência o seu discípulo Rajendra Prasai.
         Entre 1939-1945, isto é, durante o período da II Guerra Mundial, manteve-se neutral, inclusivamente no que respeita à Inglaterra.
         Quando a Guerra terminou, viu a sua luta de uma vida coroada de êxito, com a saída da Inglaterra da Índia, o que sucedeu no ano de 1947. Porém, outro problema de semelhante monta surgiu, quando a minoria muçulmana do país se recusou a permanecer no novo estado independente.
         Gandhi reconheceu a independência do Paquistão em 15 de Agosto de 1947. No início do ano seguinte, mais propriamente a 30 de Janeiro de 1948, seria assassinado por um fanático hindu, que lhe desferiu três tiros, quando o “Mahatma”, acompanhado da sua neta Avah e alguns amigos, se dirigia para uma habitual reunião de preces.
         “O Pai morreu”, foi com estas palavras que, um amigo de Gandhi, informou a multidão que esperava ansiosamente por notícias sobre o estado de saúde do “Mahatma”
         A luta de Gandhi contra o colonialismo britânico e as injustiças das suas leis, é célebre em todo o mundo pelo princípio da resistência passiva, onde se incluem a não cooperação e a desobediência civil. Gandhi definiu assim a sua luta: “A não cooperação completa carece de uma organização completa. A desordem vem da cólera e é necessária a ausência total da violência. Antes de tudo é preciso que a ordem seja mantida e rigorosamente observada. À força brutal devemos responder apenas com o sacrifício, o amor e a fé.”
         Em 1948, foi dado ao prelo o único livro que nos deixou, The Story of my experiment with Truth.
         Entre outros, foram seus contemporâneos, políticos como, o português Óscar Carmona (1869-1951), o britânico Winston Churchill (1874-1965), ou o brasileiro Getúlio Vargas (1883-1954), e escritores como Rabindranath Tagore (1861-1941), Rudyard Kipling (1865-1936) ou Edward M. Forster (1879-1970).
 
***
 
 
DIÁRIO DO ESCRITOR
 
         “É fácil falar de Deus depois de um bom pequeno-almoço e na perspectiva de um almoço melhor. Mas, como posso falar de Deus a milhares de homens que se vêem obrigados a prescindir de duas refeições diárias? Para eles, Deus não poderá assumir melhor forma do que a de um pão com manteiga.”
 
         MAHATMA GANDHI (1869-1948)
 
***
 
Coimbra, 30 de Janeiro de 1948 – Mataram Gandhi, a tiros. Houve um homem na Índia capaz de puxar ao gatilho contra a própria alma! A mercadora mas tolerante Inglaterra, se acaso o não entendeu, pelo menos respeitou sempre aquela vida que, mal entrava em jejum, fazia estremecer a terra. O fanatismo religioso, esse pôde alvejar a luz, e apagá-la! Não havia no mundo quem merecesse menos do que o Mahatma a violência brutal de um assassínio. O seu apostolado foi a expressão mais alta que se viu até hoje da intangibilidade da pessoa humana. O próprio Cristo pegou num chicote, e apensou à sua pregação de amor o rabo-leva de uma agressão. Gandhi, nesse caminho, foi o primeiro a conservar intacta a beleza da sua doutrina. Era um Sócrates da acção. E, exactamente como o Grego, morreu à mão dos contrários. O filósofo do justo bebeu a cicuta da injustiça; o resistente das mãos caídas tombou varado de balas. Mas, da mesma maneira que Atenas, matando Sócrates, lhe deu razão, também a Índia, assassinando Gandhi, lha dá. A justiça não ficou do lado da cicuta, nem a resistência há-de ficar do lado das pistolas. O mal de quem apaga as estrelas é não se lembrar de que não é com candeias que se ilumina a vida.
 
MIGUEL TORGA, Diário IV, Coimbra, 3ª ed., 1973, pp. 83-84.
publicado por cempalavras às 20:21
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