Quarta-feira, 19 de Maio de 2010

HISTÓRIA UNIVERSAL DA MÚSICA

2º CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE CHOPIN

 

         Frederico Chopin, o grande compositor e pianista, nasceu em Zelazowa-Wola, nos arredores de Varsóvia, Polónia, em 22 de Fevereiro de 1810.

         Filho de Nicolau Chopin, de origem francesa, e de Justina Krzyzanowka, teve três irmãs, tendo uma delas morrido com catorze anos, com a mesma doença que vitimou o músico.

         Em 1818, quando ainda era uma criança, revelou os seus dotes musicais, no célebre concerto de Gyrowetz, onde granjeou muitos admiradores.

         Porém, seria em 1829, dois anos depois de terminar os seus estudos musicais, que, em Viena de Áustria, se revelaria em definitivo, num concerto onde executou as suas Variações sobre um tema do Don Juan de Mozart e o Krakowiak, op. 14.

         Depois da capital austríaca, Chopin foi convidado para mostrar o seu virtuosismo em Praga, Teplitz e Dresde, regressando triunfante a Varsóvia. No entanto, o regresso ao seu país não chegaria a durar mais de dois anos, uma vez que, por um lado, o delicado Frycek, assim lhe chamavam familiarmente, não se sente bem no meio artístico polaco e volta para Viena, e, por outro, a sua débil saúde não lhe permite lutar contra a opressão russa, como fazem os conterrâneos da sua idade.

         Assim, em Julho de 1831, deixa Viena, rumo a Munique na Alemanha, e no fim do ano chega à capital francesa, com intenção de não se demorar e seguir para Londres, esperando do outro lado do Canal da Mancha, fazer mais facilmente carreira como professor e músico.

         Por esta altura, estudantes francesas faziam inúmeras manifestações de rua contra o opressor russo da Polónia. Chopin assistiu a uma, em louvor do general Ramorino, herói vencido de uma sublevação, porém, não sentia grande admiração por espectáculos de multidões e isolava-se. Sentia-se desiludido, pois os grandes músicos que residiam em Paris, e para quem trouxera cartas de recomendação, não se interessavam por ele.

         O concerto que pensava dar em Paris, antes da ida para Inglaterra, ia sendo sucessivamente adiado, ao mesmo tempo que, consciente do seu valor, não encarava com satisfação as lições dadas pelo mestre Kalkbrenner.

         Finalmente, em 26 de Fevereiro de 1832, Chopin dá o seu primeiro concerto em Paris, na sala Pleyel. O programa inclui um trecho de Kalkbrenner para seis pianos, números de canto, outros de oboé, pelo famoso artista Brod, um quinteto de violino de Beethoven, e o Concerto do próprio Chopin em fá menor, op. 21, publicado anos depois e dedicado à condessa Potocka. Este concerto foi um êxito e a ele assistiram músicos como Hiller, Liszt (1811-1886) e Mendelssohn (1809-1847). A única nota negativa atribuída a Chopin é uma certa falta de sonoridade e vigor, que as lições de Kalkbrenner corrigiriam.

         Como já foi dito acima, a timidez de Chopin não se dava bem com um elevado número de pessoas, e por isso, terá confessado um dia a Franz Liszt:

 

A multidão intimida-me; sinto-me asfixiado pelas respirações precipitadas, paralisado pelos olhares curiosos, mudo diante destes rostos estranhos. Vós, porém, para isso haveis nascido; quando não conquistais o vosso público, tendes com que esmagá-lo…”

 

         Três meses após o primeiro concerto, mais propriamente em Maio de 1832, Chopin toca de novo em Paris, e desta vez, para obter um pleno triunfo a nível artístico, já que a nível financeiro, as despesas foram superiores às receitas.

         O compositor continua a sonhar com a ida para Inglaterra, quando o convidam para se deslocar aos Estados Unidos da América. Quando está decidido a aceitar este convite, o seu amigo, o príncipe Valentim Radziwill, leva-o a uma festa em casa do barão James, de Rothschild. Pedem-lhe para tocar um pouco e Chopin maravilha de tal modo a assistência que, se vê convidado pelas poderosas famílias aristocráticas da capital francesa, para dar aulas aos seus filhos.

         Chopin tem vinte e dois anos, e possui um extenso reportório, mas inédito, de entre o qual se destaca, as já citadas, Variações sobre o tema do Don Juan de Mozart, op. 2; a Polaca para piano e violoncelo, op. 3; os dois Concertos para piano, no momento ainda incompletos, op. II e 21; a Fantasia sobre árias polacas, op. 13; e, o Krakowiak, rondó de concerto, op. 14.

         Durante cinco anos Chopin conhece a glória, não só em Paris, onde toda a gente fala dele, mas também em toda a Europa.

         Anos depois, Franz Liszt refere-se a ele, nos seguintes termos, o que nos ajuda a traçar o seu retrato físico:

 

“ O conjunto da sua pessoa era harmonioso. Os seus olhos eram mais espirituais que sonhadores e o seu sorriso doce e fino, não tinha qualquer expressão de amargura. A delicadeza e a transparência da tez seduziam; os cabelos eram sedosos, o nariz recurvado, expressivamente acentuado, a estatura pouco elevada, os membros delgados. Os seus gestos eram graciosos, a voz, um pouco surda, muitas vezes abafada. Tinha tal distinção de porte, maneiras de tal modo reveladoras de elevado convívio social que involuntariamente o tratavam por príncipe”.

 

         A este retrato podíamos juntar outras características próprias da sua personalidade, como os objectos de que se mune: “as luvas à Chopin”, jóias, bengalas e delicadas gravatas, no entanto, embora se torne um homem da moda de Paris, nunca deixa de ser um verdadeiro polaco. Como diz um dos seus biógrafos, Elie Poirée:

 

         “ Os eslavos emprestam-se de boa vontade, mas nunca se dão. Chopin é mais polaco do que a Polónia”.

 

         Notemos agora como o próprio Chopin via a sua situação, valendo-nos de uma carta que o compositor escreveu a um seu amigo:

 

         “ Eis-me lançado. Faço parte da mais alta sociedade, tenho o meu lugar marcado no meio dos embaixadores, príncipes, ministros, sem saber mesmo que cheguei a tal. Entretanto, este ambiente é hoje uma condição quase indispensável da minha existência, porque é de cima que nos vem o bom gosto.

         “ Acham-nos imediatamente muito mais talento quando nos recebem e aplaudem na embaixada inglesa ou na embaixada da Áustria. Reconhecem maior delicadeza na nossa execução quando a duquesa de Vaudemont, a última dos Montmorency, se digna proteger-nos”.

 

         O dia típico de Chopin, em Paris, desenrolava-se do seguinte modo: de manhã, dava as suas lições, principescamente pagas, aos filhos da aristocracia e da alta burguesia, após o almoço compunha, ao fim da tarde saía na sua carruagem para fazer as suas visitas sociais, jantava, ia ao teatro ou ao concerto, fazendo-se muitas vezes acompanhar de um amigo, Matuszewski, imigrado político em França.

         Abra-se aqui um parêntesis para dizer que, Chopin, auxiliava abnegadamente todos os inúmeros imigrantes polacos que se encontravam por aquele tempo em França, matando-lhes a fome e socorrendo-os de toda a maneira.

         Muitas vezes, a noite de Chopin terminava com exibições em concertos, em que participavam outros grandes músicos desta época, como, Ferdinand Hiller, Osborne, Stamaty e Franz Liszt.

         A plena felicidade nem sempre dura e, deste modo, Chopin passou por uma fase menos positiva, entre o Inverno de 1834 e a Primavera de 1835, quando o público parisiense o acolheu mais friamente, o que determinou que o polaco deixasse de dar concertos.

         Durante este período, Chopin conheceu e privou com o famoso operista italiano Vincenzo Bellini, a quem pediu que cantasse a sua última ópera, os Puritanos, que morreria pouco depois, em Puteaux, vitimado por uma súbita infecção. A obra de Chopin sofreu influências decisivas de Bellini.

         Um outro personagem que importa falar é Segismundo Thalberg, considerado em Paris como o primeiro pianista do mundo, uma vez que as suas execuções mecânicas foram, durante este período de 1834-1835, sistematicamente parodiadas por Chopin.

         Quatro anos depois de chegar a Paris, Chopin abandona a cidade das luzes, para fazer uma longa viagem, que começa na Alemanha, onde vai conhecer pessoalmente, músicos como Mendelssohn (1809-1847) e Schumann (1810-1856), que o recebem com toda a consideração. Em seguida, parte para Carlsbad, onde se encontra com o seu pai, que não via desde que deixara Viena de Áustria; e, depois, desloca-se a Dresde, onde reencontra a sua amiga de infância Maria Wodzinska, por quem se deixa apaixonar tão intensamente, que chega a pedir aos seus amigos Wodzinski, família abastada polaca, Maria em casamento, o que lhe é recusado, despoletando assim o seu primeiro grande desgosto amoroso.

         Pesaroso e infeliz, Chopin desloca-se a Londres, onde é atacado pela grave doença, que o vitimaria anos mais tarde.

         Como diz a tradição popular que, para esquecer um grande amor nada melhor do que arranjar outro, Chopin logo que chega a Paris, esquece Maria, ao conhecer a célebre baronesa Dudevant, mulher divorciada e seis anos mais velha do que ele, que já inscrevera a letras de ouro o seu nome nas letras francesas e internacionais, com o pseudónimo masculino de George Sand.

         Parece ter sido Fraz Liszt, que apresentou o compositor à escritora, a qual, entre outros, já fora também companheira do célebre escritor francês Alfredo de Musset (1810-1857).

         Em breve, Chopin começa a viver com George Sand e, no Outono de 1838, partem para as ilhas Baleares, cujo clima fora recomendado por um médico, tanto ao compositor, como a um filho da escritora, por ambos padecerem da mesma doença.

         Primeiro, em Palma de Maiorca, que abandonam por Chopin não se dar bem nesse local, depois, na Cartuxa de Valdemosa, local onde o casal se estabelecerá, e que, ainda hoje, é visitado por turistas, permanecem cerca de nove meses.

         Aqui Chopin, revê muitas das suas composições musicais e escreve outras, como é o caso da famosa Sonata em si bemol menor, op. 35.

         Em Julho de 1839, o casal regressa a França, para passar o Verão e o Outono, nas propriedades da escritora em Nohant, e o Inverno e a Primavera em Paris.

         Na capital francesa, os salões da casa Chopin-Sand recebem toda a espécie de convidados, como o célebre escritor Balzac. Enquanto todos conversavam, Chopin sentava-se ao piano e improvisava, maravilhando a sua assistência com o seu virtuosismo.

         Também no castelo de Nohant, as recepções eram do mesmo género, mas aqui sucedeu um episódio que contribuiu para o corte de relações entre dois amigos de longa data, como eram os compositores Chopin e Franz Liszt.

         O evento que antagonizou os dois músicos conta-se em duas palavras e consistiu no seguinte: certa noite, quando Chopin estava ao piano, as velas apagaram-se sendo substituído por Liszt, sem que a diferença fosse detectada por algum dos assistentes, até as velas se acenderem de novo. Chopin, embora sentindo-se vexado afirmou contemporizando que, ele próprio não teria dado pela troca, ao que Liszt retorquiu:

 

         “ Prova isto que Liszt pode ser Chopin. Pode Chopin ser Liszt?”

 

         Esta rivalidade levou ao rompimento da amizade entre os dois compositores, embora Liszt, com o seu bom humor, explicasse o caso do seguinte modo:

 

         “ – As nossas damas zangaram-se e nós, como bons cavaleiros, demos-lhes razão…”

 

         No Verão de 1846, Chopin abandonou Nohant, tendo-se separado de George Sand. A origem desta separação é explicada de várias maneiras: uns dizem que havia uma grande incompatibilidade entre o compositor e o filho de Sand, outros afirmam que essa incompatibilidade era entre Chopin e a filha e o genro da escritora, outros ainda explicam o corte entre os dois amantes partindo do lançamento do romance Lucrécia Floriani, onde George Sand representa o próprio Chopin na personagem pouco recomendável do príncipe Carol.

         Dois anos depois, já de malas feitas para partir para Inglaterra, Chopin decide dar um concerto de despedida ao seu público parisiense, na sala Pleyel. Ao formar a orquestra, consegue a colaboração de dois virtuosos, Alard no violino e Franchomme no violoncelo, e toca a sua Sonata em sol menor para piano e violoncelo, op. 65. Depois, a solo no piano, Chopin encanta a assistência com, a Barcarola, a Berceuse, a Valse au petit chien, um Nocturno, um Estudo e várias peças de dança.

         Este estrondoso êxito fica assinalado com um desmaio de Chopin no final da sua actuação, devido ao grande esforço dispendido.

         Chopin pretendia realizar um segundo concerto, também em Paris, mas não o consegue fazer, devido à revolução que derrubou Luís Filipe. Quase de seguida, o compositor embarca para Inglaterra e Escócia, onde permanece cerca de um ano, coleccionando êxitos e dissabores. Destes últimos, um dos que mais afectou Chopin prende-se com uma festa realizada em Guindhall, com efeitos de beneficência para refugiados polacos, onde o grande público de Londres o deixou na pequena sala de concerto para ir dançar barulhentamente num salão contíguo.

         No início do ano seguinte, em Janeiro de 1849, Chopin regressa a Paris, no entanto, o seu contentamento de voltar a França é ofuscado, pela sua má situação económica e débil estado de saúde.

         Auxiliado por amigos, Chopin vai vivendo, apesar de os médicos que o observam lhe darem pouco tempo de vida, devido à sua avançada tuberculose. Acompanham o doente, a sua irmã casada, Jedrzejewiec, o seu inseparável amigo Gutmann, e a princesa Marcelina Czartorywska.

         No dia 15 de Outubro deste ano de 1849, já muito próximo do fim da sua vida, Chopin recebeu a visita da condessa Potocka, a quem pediu que cantasse qualquer coisa. Trouxeram o piano para o quarto e a aristocrata cantou uma ária da Beatriz de Tenda, de Bellini, cena retratada mais tarde pelo pincel de Barrias.

         No dia seguinte, Chopin quis que lhe dessem os últimos sacramentos da igreja, depois falou aos amigos que o acompanhavam e, na madrugada do dia 17, quando Gutmann o levantou para lhe dar água, murmurou apenas:

         - Caro amigo…

         Os funerais de Chopin revestiram-se de uma pompa inexcedível, realizando-se as exéquias na igreja de Madeleine. A orquestra do Conservatório, foi dirigida por Giraud e contou com as vozes da célebre Madame Viardot, de Castellan, do grande Lablache, e de Dupont, que interpretaram o Requiem de Mozart. Em seguida, Lefébure-Wély tocou no órgão os Prelúdios de Chopin em mi-menor e em si-menor.

         Chopin foi sepultado no Père-Lachaise, junto do túmulo de outro grande músico – Vincenzo Bellini. No cortejo fúnebre incorporaram-se o príncipe Czartorywski, o pintor Delacroix, o músico Meyerbeer considerado o maior do seu tempo, e os amigos pessoais Franchomme, Gutmann e o conde Wodzinski, que lançou um punhado de terra polaca sobre o caixão e fez o agradecimento do país àquele filho dilecto.

publicado por cempalavras às 22:26
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