Quarta-feira, 22 de Setembro de 2010

HISTÓRIA VDA FILOSOFIA PORTUGUESA

DA MEMÓRIA… JOSÉ LANÇA-COELHO

 

ELOGIO DA PEDAGOGIA DE LEONARDO COIMBRA POR AGOSTINHO DA SILVA

 

         Em Ir à Índia sem Abandonar Portugal (pp.26-27), Agostinho da Silva fala da sua passagem pela Faculdade de Letras do Porto, fundada por vultos como Leonardo Coimbra, Teixeira Rego, Hernâni Cidade e Damião Peres.

         Quanto à sua vida académica, Agostinho da Silva define-se como, “manhosamente era um bom estudante”, justificando esta atitude do seguinte modo, “porque é a única maneira da gente não se chatear, é estudar tudo, não é?”, concluindo que, “Então, bom é estudar. Manhosamente, o sujeito deve estudar. A cabulice não dá certo. Eu fazia isso, só tinha vinte (…)”.

         Porém, não se julgue que a nota máxima era extensível a todas as matérias, pois havia uma que, paradoxalmente, Agostinho da Silva não gostava de estudar, “praticamente a única cadeira em que eu nem dez tinha era Filosofia”.

         É aqui que entra o elogio à pedagogia de Leonardo Coimbra, quando Agostinho da Silva o define como, “um homem muito compreensivo”, afirmando que, da primeira vez que foi seu aluno, “em Psicologia não-sei-quê”, Leonardo terá posto um problema de Geometria.

Servindo-se do seu conhecimento das Geometrias não-euclideanas - ”eu de Filosofia não sabia” – confessa Agostinho da Silva, este, dissertou sobre as Geometrias euclidianas e as não-euclidianas “que é um problema filosófico, e que o Leonardo tomava como problema filosófico (além de o tomar como um problema matemático, porque ele era bom matemático, tinha sido aluno da Escola Naval…), ele deu-me dez para eu passar”.

Da segunda vez que Agostinho da Silva foi discípulo de Leonardo Coimbra, este último terá ainda sido, a meu ver, mais compreensivo, e se Agostinho da Silva louva a atitude pedagógica de Leonardo Coimbra, eu não posso deixar de evocar a honestidade e a coragem de Agostinho, ao tornar público este episódio da sua vida académica, que, lhe poderia valer muitas críticas, dada a inveja que grassa nos meios universitários. Só um Homem, despojado das vaidades humanas, um verdadeiro filósofo!, como ele era, o podia fazer.

Vamos, então, ao episódio em questão. Agostinho da Silva diz que a segunda vez que cruzou a sua vida de discípulo com Leonardo, foi na ‘cadeira’ de Filosofia Medieval, matéria sobre a qual nada sabia nem, na altura, se interessava, o que levou o pedagogo a dizer-lhe: “Eu não lhe posso dar nem dez para você passar! Mas tem tão boas notas que ninguém vai acreditar nisso… e estraga-lhe a média. Vamos fazer uma  coisa: vamos ver que nota é que não lhe estraga a média.” E acabei por ter dezassete a Filosofia (…). Sinal de que aquela Faculdade tinha pelo menos um – tinha mais – professor inteligente, o que nem sempre sucede em todas as faculdades (…)”.

Realmente, só um verdadeiro pedagogo podia ter uma atitude como esta. Eu que também fui professor compreendo-a perfeitamente. Que interessava a um professor reprovar um aluno na sua ‘cadeira’, quando ele tinha notas de vinte em todas as outras? Só lhe ia estragar a média final e fazer com que ele ganhasse um azar à Filosofia Medieval, matéria pela qual, o aluno em questão mais tarde veio a gostar.

Estes dois exemplos sobre a prática pedagógica de Leonardo Coimbra fornecidos por Agostinho da Silva, mostram como o primeiro era um verdadeiro Pedagogo e, o segundo, já o dissemos, mas nunca é demais repetir nos tempos actuais, em que a mesquinhez e a inveja grassam aflitivamente, um verdadeiro filósofo. Aliás, note-se a ombridade do ‘amante da sabedoria’ quando na sequência do exposto, afirma: “O primeiro governo da Ditadura, resolveu extinguir a Faculdade. (…)Não sei se o Carmona percebeu o que era a Faculdade de Letras, não sei se julgou que era alguma coisa de tipografia porque falava em letras (…) Fizeram-me (…) um grandessíssimo favor! Porque eu tinha entrado naquela máquina da faculdade, ia ser professor de Grego e Latim, que é uma coisa que se estuda toda a vida e nunca se sabe…”

Quem tinha coragem para declarar que nunca viria a saber a matéria que estudou durante toda a sua existência?

publicado por cempalavras às 23:29
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Quarta-feira, 15 de Setembro de 2010

"THE BEATLES"

DA MEMÓRIA… JOSÉ LANÇA-COELHO

 

O 1º CINQUENTENÁRIO DOS ‘BEATLES’

 

         A 17 de Agosto de 1960, os ‘BEATLES’, o grupo musical mais famoso do mundo, dava o seu primeiro concerto mundial com este nome, não na cidade inglesa que os viu nascer – Liverpool -, mas, na Alemanha, em Hamburgo, num pequeno clube nocturno – o ‘Indra’ - onde conseguira o seu contrato inicial.

         Antes desta designação universalmente conhecida, os ‘BEATLES’ tiveram diversos nomes. Começaram por se chamar ‘Quarrymen’, nome que derivava da designação ‘Quarry Bank’, o antigo liceu de Liverpool, frequentado por John Lennon. Este, Paul McCartney e George Harrison formavam então a banda, que não tinha baterista.

         Por esta época, tocavam as canções dos músicos mais conhecidos – Elvis Presley, Chuck Berry, Buddy Holly, Bo Diddley e Lonnie Donegan. Um pouco mais tarde, mudaram de nome, passando a designar-se por ‘Johnny and the Moondogs’. Mas esta alteração foi de pouca duração, pois quando conseguiram tocar no ‘Jacaranda’, um clube onde todas as noites actuava o grupo de Liverpool ‘Rory Storm and the Hurricanes’, cujo baterista era Ringo Starr, os três amigos – John, Paul e George – alteraram de novo o nome da banda, desta vez, para ‘Silver Beatles’.

         A ideia desta transformação onomástica partiu de John que, gostava destas designações que tinham por base insectos, como a banda de Buddy Holly, os ‘Crickets’, e assim chegaram a ‘Beetles’ (escaravelhos), porém, Lennon propôs que alterassem o segundo e para a, uma vez que, por um lado, sonhou que a palavra com a teria imenso êxito, por outro, a palavra lida com as sílabas ao contrário soava a francês: ‘Les Beat’.

         Entretanto, juntaram-se ao grupo Stuart Sutcliffe e Pete Best, o último era o baterista que há tanto esperavam. Estes dois, juntamente com os já mencionados John, Paul e George, reduziram o nome da banda para ‘THE BEATLES’, designação que, tal como John previra, teve um êxito mundial e nunca visto. Foi, pois, com este nome e com esta formação, que a banda mais conceituada do mundo se estreou em Hamburgo, a 17 de Agosto de 1960, fazem agora cinquenta anos.

         De regresso a Liverpool, o grupo com uma nova formação, pois Sutcliffe ficou a viver em Hamburgo e, na bateria, Pete Best foi substituído por Ringo Starr, começou a tocar num acanhado clube chamado ‘Cavern’, porém, os ‘Beatles’ continuaram a serem desconhecidos, até ao dia em que três pessoas entraram na loja de venda de discos de Brian Epstein e manifestaram o desejo de comprar um single do grupo. Epstein desconhecia-os, mas, como bom empresário, informou-se sobre quem eram e onde actuavam. Deslocou-se então à ‘Cavern’ e ficou maravilhado com o que viu. Propôs-se ser o ‘manager’ dos ‘BEATLES’ e, em breve, lhes arranjou um contrato para gravarem o primeiro disco, intitulado ‘Love Me Do’, que saiu em finais de Setembro de 1962 e atingiu o décimo sétimo lugar na tabela de vendas inglesa.

         A partir daqui, foi sempre a subir. A 16 de Fevereiro de 1963, o segundo disco dos ‘BEATLES’, ‘Please Please Me’ atingiu o primeiro lugar na tabela de vendas inglesa e, desde este momento, todos os discos do grupo entraram de imediato para o ‘Top One’, o que não é de estranhar, pois, notemos como exemplo, o facto do sexto ‘single’, ‘Can’t Buy Me Love’, antes de ser lançado ter já encomendas de três milhões de exemplares, o que lhe valeu a entrada para o número um de vendas, tanto na Grã-Bretanha como nos Estados Unidos.

         Porém, como tudo o que é humano tem um fim e, assim, a 10 de Abril de 1970, Paul McCartney anunciava aos órgãos de comunicação o fim dos ‘BEATLES’. Uma década de vida bastara para transformar e elevar a música popular ao mais alto nível

publicado por cempalavras às 00:18
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AGOSTINHO DA SILVA

DA MEMÓRIA… JOSÉ LANÇA-COELHO

 

O TRABALHO SEGUNDO AGOSTINHO DA SILVA

 

         Na perspectiva do filósofo português Agostinho da Silva (Porto, 1906-Lisboa, 1994), Portugal deveria passar de país marítimo a país naval, o que, parecendo o mesmo, é significativamente diferente, como se pode inferir da citação seguinte:

 

PAÍS MARÍTIMO/PAÍS NAVAL:

 

“Portugal deve passar de país marítimo a país naval. Não é a mesma coisa. País marítimo, pode ser, por exemplo, estar na praia não fazendo coisa alguma. País naval, ter alguma coisa que fazer, inclusive ter como objectivo não fazer nada. Mas é preciso querer nitidamente não fazer nada, não é abandonar-se ao não fazer nada, é não querer fazer nada mesmo! Ter a profissão de não querer fazer nada. Eu só conheci um homem que tinha essa força, (…)”. (Agostinho da Silva, Ir à Índia sem Abandonar Portugal, p. 14)

 

         Já imaginaram o que é «ter a profissão de não querer fazer nada»? Pessoalmente nunca conheci ninguém que a exercesse, pelo contrário, Agostinho da Silva afirma ter conhecido uma pessoa assim, que era reformada desde que nasceu, acrescentando que deveríamos criar uma sociedade que permitisse atribuir esse estatuto a qualquer cidadão, o que em plena época de crise económica a nível mundial me faz esboçar um sorriso.

         Por outro lado, é ainda significativo o alerta lançado pelo filósofo, para o perigo de morte que representa a inacção, daí que as duas regras de ouro para a existência, passem por, não trabalhar nunca, mas, pelo contrário, ter sempre uma ocupação. Vejamos, então, o que diz o filósofo a este respeito:

 

TRABALHO:

 

“A alegria, a alegria do sujeito… Tinha-se reformado desde que tinha nascido, que era o que nós todos devíamos fazer, estar sempre reformados à nascença… Temos que pensar numa economia, numa sociedade, em que qualquer tipo seja reformado à nascença. E saiba imediatamente, se puder entender, que quem não faz nada morre depressa. E que, portanto, procure naquilo que é, naquilo que sente do mundo, o que é que gostaria de fazer. As duas leis devem ser: «Não trabalhe nunca; por favor esteja sempre ocupado.» (Agostinho da Silva, Ir à Índia sem Abandonar Portugal, p. 15)

 

Na perspectiva do filósofo português Agostinho da Silva, dentro do tema «Trabalho», há que considerar os «Amadores de Coisas», elemento essencial e, assim definido:

 

AMADORES DE COISAS

 

         “ «O senhor o que é que gostaria de ser?», talvez ele dissesse «Ai, eu gosto muito de guiar carros.» Muito bem. Pronto, gosta de guiar carros, estupendo. Então, entra numa classe que temos de aproveitar no mundo futuro, que é a classe dos amadores de coisas. Há uma quantidade de gente que é amadora de fazer aquilo que a nós, por exemplo, custaria. Mas eles gostam… (…) Há sujeitos que não gostam de fazer coisa nenhuma senão de estar a olhar para ma nuvem. Eu considero esses tipos utilíssimos, porque ninguém sabe o que sairá dali. Não se conta aquela história de que a lei da gravitação apareceu por ter caído uma maçã na cabeça de Newton? Não era obrigatório que o Newton estivesse a estudar Matemática na altura em que lhe caiu a maçã na cabeça… podia estar a dormir debaixo da árvore, ou ter acordado naquele momento, ou qualquer coisa assim, eu sei lá! Quem me diz que a um homem, cujo ideal é estar de papo para o ar olhando para as nuvens, de repente, não se lhe atravessa na cabeça uma ideia? Por que é preciso intuir isso, hem? É que há pessoas que julgam que fabricam as ideias com a cabeça. (…) O facto da ideia ser secreta, ele conhece-a, eu não, dá-me a ideia de que ele é que está, realmente, a pensar com a cabeça dele. (…) qualquer sujeito que já fez versos, ou fez Matemática, ou qualquer coisa assim, sabe perfeitamente que de vez em quando a cabeça é atravessada por um verso.” (Agostinho da Silva, Ir à Índia sem Abandonar Portugal, pp. 16-17.)

 

         Agostinho da Silva afirma aqui, que, não é pelo facto de se estar deitado e olhando o firmamento que, de um momento para o outro, não se possa ter uma ideia genial, facto que pode ser comprovado, por qualquer pessoa que tenha já feito qualquer tentativa de concreto no campo das Letras ou das Ciências.

         Um pouco mais adiante Agostinho da Silva disserta sobre a importância das máquinas para a Humanidade, afirmando que para além delas e da já citada, classe dos amadores, existem as pessoas que estão prontas a sacrificar-se pelos outros, e, o serviço civil.

         Este último item leva-o a falar da reforma. Assim, depois de se questionar sobre o que é um homem reformado, responde do seguinte modo:

 

REFORMADO

 

         “ Quer dizer que esse homem cumpriu um certo número de anos de serviço, civil ou militar. A partir daí é dispensado. Acha-se que já contribuiu o bastante para toda a gente comer – e ele próprio -, de maneira que pode ir para casa e terá de comer. É evidente que se aproveitássemos ao máximo todos os recursos que há hoje, ninguém teria de se reformar aos sessenta ou setenta anos, toda a gente se poderia reformar aos trinta, por exemplo, ou aos quarenta…E muita gente já se reforma. Gente que, por acaso, entrou muito cedo num determinado serviço, ou, noutros casos, lhe contaram em dobro o tempo.” (Agostinho da Silva, Ir à Índia sem Abandonar Portugal, pp. 20-21)

 

         É curioso o modo como Agostinho da Silva termina o presente escrito, intitulado «Elogio do Ócio» (pp. 15-21), referindo como a anterior situação se aplica a ele próprio. Assim, revela que, quando ainda era professor de liceu, concorreu para Moçambique, sabendo que o tempo de magistério exercido naquela antiga colónia, lhe contaria a dobrar para efeito de reforma:

 

         “ De maneira que ia-me reformar muito cedo, e como havia muita coisa em que pensava e que queria fazer… uma delícia! Porque me libertavam daquela coisa toda de ensinar latim aos meninos, aí aos cinquenta anos, e eu, de acordo!” (Agostinho da Silva, Ir à Índia sem Abandonar Portugal, p. 21).

 

publicado por cempalavras às 00:04
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