Quinta-feira, 9 de Outubro de 2014

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ARMANDO CALDAS E OS «DIÁRIOS»

       Armando Caldas iniciou-se no teatro como actor, actividade que exerceu durante longos anos, para depois se dedicar à encenação, sendo ele que coordena o grupo Intervalo, que já se chamou 1º Acto – Clube de Teatro, e que está sediado no teatro Lurdes Norberto, em Linda-a-Velha.

        Conheci-o durante a «Primavera Marcelista» e, desde essa época, que, regularmente, acompanho as peças que tem levado à cena. Tive também a honra de ser convidado para participar com o meu testemunho no livro, com que a Câmara Municipal de Oeiras, homenageou este homem ligado à actividade dramática.

        Porém, o que me leva hoje a evocá-lo, prende-se com o facto, de ter voltado a ler os Cadernos de Lazarote de José Saramago. Na verdade, ao ler o primeiro destes Diários, vim encontrar no dia 4 de Junho de 1993, o que o futuro Nobel da Literatura, pois só ganhará o Prémio em 1998, escreve acerca do nosso amigo comum. «Estava, posto em sossego, na Feira [do Livro], a assinar os meus livrinhos quando se me chega o Armando Caldas que, passado um bocado, começa a contar uma história. Que ele e o seu grupo de teatro – o Intervalo – participaram na organização da homenagem ao Manuel Ferreira, essa mesma para a qual, a pedido da Orlanda Amarílis, escrevi um pequeno texto. Que, como tudo custa dinheiro, e cada vez mais, pediu à Secretaria de Estado da Cultura um subsídio, cujo, milagre dos milagres, foi concedido. Mil contos, melhor que nada. Crendo ser de boa diplomacia, o Caldas lembrou-se de colocar uma cereja no bolo, isto é, pedir também ao Santana Lopes uma declaração para ser lida na homenagem, sem pensar que o dito Lopes poderia, por sua vez, lembrar-se de lhe pedir a lista das pessoas que igualmente tinham sido convidadas a escrever. Vinte e quatro horas depois de comunicados os nomes – Maria Velho da Costa, António Alçada Baptista, Urbano Tavares Rodrigues e o criado de Vocências – recebia o desolado Caldas a notícia de que o subsídio tinha sido cancelado. Causa? Não foi dita. Parece que mais tarde a Secretaria de Estado quis emendar a mão, prometendo 300 contos, mas aí o Armando Caldas encheu-se de brios e mandou-os passear. Com dinheiros arranjados aqui e ali, a homenagem não deixaria de se fazer. E agora a pergunta: o que foi que levou o Lopes a cancelar o subsídio e a não escrever a declaração? Receio de chamar ao Manuel Ferreira o escritor da Terra Nova, que também é ilha? Ou, como é mais provável, nojo de misturar-se com os declarantes, de aparecer ao lado de um deles? E qual, se é este o caso? Fátima? Não creio. Alçada? Tão pouco. Urbano? Duvido. Eu? Sendo o Lopes aquele bom católico que conhecemos, o confessor deve saber…» (José Saramago, Cadernos de Lanzarote, I, pp. 53-54)

        Depois do Diário de Saramago, atente-se no que escrevi no meu modesto «Diário Irregular», ainda por publicar, em que sou dois, - guilherme revolto um velho anarquista que só usa a letra minúscula e escreve sem qualquer pontuação, e o registado José Lança-Coelho, já que não sou baptizado nem professo qualquer religião - acerca de Armando Caldas:

«monte do carrascal 16 out 98 – deixei o campo para vir ao teatro 1º acto que agora é intervalo aplaudir saramago

ouvi o urbano tavares rodrigues ler-lhe um elogio literário

seguiu-se uma comunicação do armando caldas dizendo que o homem não podia aparecer pois estava no porto na cimeira ibero-americana

fiquei-me com a peça do ibsen

guilherme revolto»

 

«Linda-a-Velha, 18 de Abril de 1999 – O Armando Caldas fez, mais uma vez, o favor de nos arranjar dois bilhetes para o teatro, mais especificamente para «O Carteiro de Pablo Neruda», peça soberba no que respeita ao texto e à encenação. Achei-a muito melhor que o filme, no que respeita à denúncia dos horrores do fascismo chileno, do assassinato de Allende e à ascensão do criminoso Pinochet, que, continua retido em Inglaterra.

        Reencontro com Eunice Muñoz, amiga de longa data e, André Gomes (o Pablo Neruda), antigo colega do curso de Filosofia da Faculdade de Letras, que ainda se lembrava deste escriba obscuro. Dei os meus modestos parabéns a Joaquim Benite pelo engenho do cenário, simples, mas soberbo, todo feito com portas.

        E assim terminou mais uma tarde de teatro proporcionada, por aquele que considero um grande amigo, o Armando Caldas.»

publicado por cempalavras às 22:38
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Sexta-feira, 3 de Outubro de 2014

DIÁRIO IRREGULAR

Paço de Arcos, 3 de Outubro de 2014 – Há publicações a que não passo qualquer «cartão»!, como se diz na gíria, então as que falam de economia, nem as abro, mas há outras com que perco algum do meu precioso tempo, como é o caso de que quero falar hoje, trata-se do «Blitz», que foca sobretudo a música. Para ser totalmente feliz, no campo dos «media», devia haver todos os dias um JL, um Público com o suplemento ipsîlon, um Diário de Notícias com o suplemento Qº - Quociente de Inteligência, um Expresso com o suplemento Actual, uma Visão, e uma Sábado. Mas os meus devaneios não interessam. Falemos, então, do «Blitz» que, compro sempre quando traz na capa as minhas bandas preferidas por ordem decrescente: Beatles, Stones, Kinks, Pink Floyd, Queen, Dire Staits, etc. Hoje fui à Biblioteca Municipal de Oeiras e, deparei-me com os Pink Floyd na capa da revista referida, comecei-a a folhear, e vejo na secção do noticiário uma cara minha conhecida, com duas datas por cima: «1950-2014», depois leio um nome – «Luís Pedro Fonseca» - que correspondia à foto e às datas enunciadas. Penso, estas datas geralmente correspondem ao nascimento e ao falecimento, mas, não pode ser!, ainda não foi há muito tempo que falei com ele no Facebook. O meu colega da 4ª classe, feita na Escola Dionísio dos Santos Matias, em Paço de Arcos. Debruço-me, precipitadamente, sobre as letras miudinhas do lead da notícia, e lá está aquilo em que não queria acreditar: «vítima de ataque cardíaco, faleceu com 64 anos, a 24 de Agosto…». Tinha precisamente a minha idade e faleceu, da mesma maneira que a minha querida mulher. Depois vinha a explicação de quem ele era, feita pela Lena d’Água: entre outras bandas, tocara nos «Chinchilas», «Salada de Fruta» e, criara a música «Olha o Robot». Já não quis saber dos Pink Floyd. Fechei a revista. Vim para casa, pensando que o meu prazo de validade está a expirar…

 

josé lANçA-coelho

publicado por cempalavras às 20:45
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Quarta-feira, 1 de Outubro de 2014

ORAÇÃO A DEUS, de VOLTAIRE

Nestes tempos conturbados em que vivemos na «aldeia global» com guerras em nome de Deus (Israel versus Palestina), assassínios em nome do mesmo Ser (Iraque) e, last but not the least, com o avanço de epidemias mortais ( Ébola) em certas latitudes, mas que podem contaminar todo o planeta, parece-me lícito lembrar a «Oração a Deus» de Voltaire, que o grande pensador da Humanidade escreveu no seu Tratado sobre a Tolerância (1763), vinte seis anos antes desse marco histórico que foi a Revolução Francesa, num tempo em que as Luzes já se tinham acendido na Razão humana.

       Voltaire começa, assim, por dizer a quem se dirige, e o motivo por que o faz:

«Não é portanto mais aos homens que me dirijo; é a Ti, Deus de todos os seres, de todos os mundos, e de todos os tempos. (…) Tu que nos deste um coração para nos odiarmos, e mãos para nos degolarmos, fazei com que nos ajudemos a suportar o fardo duma vida penosa e passageira;»

O filósofo de Ferney mostra em seguida como todas as diferenças entre os homens – incluindo as religiosas – são de uma mesquinhez tão ínfima como a nossa natureza, que classifica de «átomos». Assim, escreve:

«(…) que as pequenas roupas diferenças entre as roupas que cobrem os nossos débeis corpos, entre todos os nossos costumes ridículos, entre todas as nossas leis imperfeitas, entre todas as nossas opiniões insensatas, entre todas as nossas condições tão desproporcionadas aos nossos olhos, e tão iguais perante Ti; que todas estas pequenas diferenças que distinguem os átomos chamados “homens”, não sejam sinais de ódio e de perseguição; que aqueles que acendem velas em pleno dia para Te celebrar suportem aqueles que se contentem com a luz do Teu Sol; que aqueles que cobrem o seu fato com um paramento branco para dizer que é necessário amar-Te não detestem aqueles que dizem a mesma coisa sob um manto de lã negra (…)».

Estas últimas palavras enfatizam aquilo que já assinalámos e que é, o absurdo conflito entre religiões – cristianismo, judaísmo e islamismo – que defendem a existência de uma só divindade; matriz que o criador do Candide ou l’Optimisme, o campeão da tolerância no século XVIII, acentuará no excerto seguinte:

«Possam todos os homens lembrar-se que são irmãos, que eles tenham horror à tirania exercida sobre as almas, como eles abominam o ladrão que rouba pela força o fruto do trabalho e da indústria pacífica!»

Termina Voltaire a problemática que vimos tratando, com um apelo à Paz que, no dealbar de Oitocentos, nos antecipam posições sobre o tema da Guerra de filósofos nossos contemporâneos, como Einstein e Bertrand Russel.

«Se os flagelos da guerra são inevitáveis, não nos odiemos, não nos atormentemos uns aos outros no que respeita à paz, e empreguemos o instante da nossa existência para glorificar da mesma maneira em mil línguas diferentes, desde o Sião até à Califórnia, a Tua bondade que nos deu este instante.»

Possa a Humanidade, o mais depressa possível, cumprir os votos de Voltaire, é o nosso desejo mais premente.

José Lança-Coelho

publicado por cempalavras às 12:49
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