Terça-feira, 13 de Janeiro de 2009

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DA MEMÓRIA…JOSÉ LANÇA-COELHO
 
“A FORÇA DO DESTINO” E DA COXINHA DO TIDE
 
            Lembro-me de ir à loja de fazendas da minha avó materna e, por cima da sua máquina de costura, onde fazia os arranjos necessários às peças de vestuário das clientes, haver um calendário feito por ela, a lápis, com os nomes dos folhetins, as horas e os postos que os emitiam.
            Este fenómeno começara em 1955, com a emissão de um folhetim na Rádio Graça e Rádio Clube Português, que tinha por título “A Força do Destino”, mas que ficou popularmente conhecido pelo folhetim da “coxinha” ou do Tide.
            O folhetim era de origem sul-americana posteriormente adaptado à realidade portuguesa, por haver falta de escritores nacionais que se dedicassem a este estilo. A linha da narrativa passava pela história simples de Margarida, uma jovem “coxinha” que andava de muletas, amorosa e triste, apaixonada pelo médico Humberto Figueirola, casado com uma mulher má, de nome Raquel e prima de Margarida. No final, após inúmeras peripécias, Raquel morre e Margarida casa com o médico, de quem tem uma filha, contribuindo assim para a reabilitação de todas as “coxinhas” do país.
            As reacções dos ouvintes no país dos brancos costumes foi surpreendente, desde a abordagem dos actores na rua, a cartas e telefonemas para a estação, ou até mesmo a deslocações à porta da emissora, para, por um lado, tentar saber pormenores sobre a continuação da história e, por outro, auxiliar a coxinha, atacar a vilã da Raquel, e aconselhar o doutor Figueirola.
            Pormenor curioso era também o de Lily Santos, a actriz que interpretava o papel da coxinha, ter de caminhar com desenvoltura, quando surpreendida na rua pelos ouvintes, uma vez que estes últimos acreditavam religiosamente que, a “Margarida” tinha mesmo problemas de locomoção. A histeria atingiu tal dimensão, que o cortejo do casamento real, realizado em Lisboa, entre a citada actriz e o sonoplasta do folhetim, Octávio Frias, técnico da Rádio Graça, foi invadido por uma multidão que pretendia arrancar bocados ao vestido de Lily para o guardar como recordação, entalando com gravidade o mestre-de-cerimónias na porta da viatura nupcial.
            Relativamente à vilã Raquel, interpretada por Lurdes Santos, foi uma vez auxiliada a escapar de um estabelecimento onde fazia compras, surpreendida por um grupo de mulheres que queriam fazer justiça por suas mãos. Quando aconteceu a sua morte ao nível do folhetim, centenas de ouvintes telefonaram para a Rádio Graça, para se inteirarem do horário e do local onde decorreria o funeral, havendo mesmo até, quem encomendasse um carro funerário que se dirigiu para as instalações da rádio.
            Quanto ao médico, interpretado pelo galã Ricardo Isidro, para além de receber centenas de cartas, chegou a ser intimado para se apresentar na Policia Judiciária, acusado de seduzir uma rapariga que estava noiva. Após o actor negar o facto, concluiu-        -se que quem apresentara a queixa, fora o noivo repudiado, por a namorada lhe confessar que se deixara apaixonar pelo doutor Humberto Figueirola.
            O patrocinador deste evento, - que mostrou como a ordem e os bons costumes que a ditadura pretendia preservar num país onde nada podia acontecer, poderia ser alterada por um simples folhetim -, foi o detergente “Tide” para lavar a roupa, que oferecia prémios a quem coleccionasse um certo número de tampas. Aliás, se não me falha a memória, o referido “Tide” foi o primeiro detergente em pó a aparecer em Portugal, para fazer frente ao usual sabão azul e branco.
            A minha avó não entrou na euforia que acabo de descrever, mas a verdade é que seguia com muita atenção, todos os pormenores relativos a este e a outros folhetins radiofónicos, tanto mais que, sendo uma assídua espectadora de teatro, se interessava por folhetins baseados nas obras imortais de Eça, Garrett, Herculano, Camilo, etc.
publicado por cempalavras às 23:12
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1 comentário:
De Rogério Santos a 19 de Fevereiro de 2009 às 15:51
Esta mensagem corresponde ao texto de Matos Maia, Telefonia, que ele publicou em 1995, e se pode ler nas páginas 205 a 207.
Rogerio Santos


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